Que o amor não seja fingido…

Às vezes, a realidade dá um jeitinho de vir de fininho e dar um beliscão na tua bunda. E quando a represa estoura, a única coisa que você pode fazer é sair nadando. O mundo do fingimento é uma jaula, não um casulo. Nós só conseguimos mentir pra nós mesmos por um tempo. A gente fica cansado, com medo e negar isso não muda a verdade. Cedo ou tarde, a gente tem que deixar a negação de lado e encarar o mundo. Ande com a cabeça erguida, com vontade. O Nilo não é apenas um rio no Egito – é todo um oceano. Então como você faz para não se afogar nele?

Esse discurso está na série Grey’s Anatomy (2×04).

Esse discurso me fez pensar em como suportamos tantas coisas, tantas provas. Sufocamos tantos sonhos, tantos desejos, tantos pensamentos que, inevitavelmente, acabam represados em nossa alma. Infelizmente, à maneira da água, somos sufocados. Não aguentamos tanta pressão e nos vemos submergidos.

Desde a infância, passando pela adolescência, chegando à fase adulta e culminando na senelidade. Tantas coisas que vamos vivendo e essas lembranças não se apagam. Pois é. Elas não se apagam – mesmo que não lembremos, elas estão lá em algum lugar do nosso inconsciente.

Mentiras, ilusões, alegrias, esperanças, desejos… Quantas coisas ficam gravadas em nós. Somos aquilo que fazemos, somos aquilo que pensamos, somos aquio que sentimos. Somos também todas as nossas lembranças. Umas apontam para o nosso passado, outras para o nosso presente, outras ainda, para o nosso futuro. Mas não podemos negar quem somos.

Somos o resultado de uma grande, exuberante e formidável construção que parece não ter fim. Estamos em constante construção e re-construção. Nos reconstruímos, nos refazemos, nos modelamos todos os dias. Mas não desanimamos, pois o desânimo é um claro sinal de derrota. Pelo contrário, partimos em busca de algo que nos motiva, nos impulsiona a continuar vivendo, indo além… E esse algo é, na verdade, o reflexo da construção da melhor versão de nós mesmos.

Entre trancos e barrancos, como soldados feridos, vamos lutando na vida. Concorde comigo ou não, mas a verdade de si deve ser a base para essa luta constante que travamos com nós mesmos. A verdade deve ser o vínculo de nossas relações. Como falou nossa narradora: o fingimento é uma jaula e não um casulo – a jaula aprisiona; o casulo transforma.

Você pode não ser a melhor pessoa do mundo. Nem por isso precisa fingir que é. Não seja o que voce não é. Se assuma enquanto tal. Como diz o apóstolo Paulo, ‘que nosso amor não seja fingido’, nem pelos outros, nem por nós mesmos.

Concorda?

O inferno são os outros?

Na obra de Jean Paul Sartre, filósofo francês, Entre Quatro Paredes’ ele narra a convivência de pessoas de uma forma bem pessimista, onde os conflitos que vivemos são causados pelos outros – os outros são os culpados pelas coisas errados – eles são o nosso inferno.

Bem, estamos falando de relações.

Boi, boi, boi… Boi da cara preta pega essa criança que tem medo de careta…

Quem nunca ouviu essa canção? Pelo menos uma vez na vida você já deve ter tido contato com ela. Costumeiramente nos deparamos com essa canção como uma daquelas de ninar, para fazer uma criança dormir. Não é verdade?

Convenhamos, que canção mais horripilante para fazer alguém dormir, não? Na base da ameaça. Dorme, menino (a), senão o boi da cara preta vem te pegar. Quantas outras canções você conhece que se enquadram nesse molde?

Vejo que isso, de certa forma, faz parte da base e educação que recebemos: o medo. Segundo Emilio Mira Y Lopez, o medo é um dos quatro gigantes da alma. O medo não só é um instinto natural, mas manipulável. Manipula-se o medo a favor do opressor contra o oprimido. Isso em diversas instâncias: na família (se não fizer isso vai ficar de castigo); na escola (se não fizer a lição e se comportar vamos convocar seus pais); no trabalho (entregue o relatório no prazo senão será demitido); e assim vai.

O medo faz parte da vida humana e serve como uma referência para a sobrevivência. Na segurança (moradia, integridade física, sua saúde, seu psicológico – daí a necessidade de tantos seguros que existem no mercado); na economia (alimentação, dinheiro, trabalho); na sociedade (contratos para todos os gêneros possíveis); na vida afetiva (relacionamentos que trazem segurança, medo de traição, ciúmes)

Percebeu como o medo está em todo lugar?

Por causa dele (o medo), os primeiros seres humanos, em busca de segurança, passaram a viver juntos como uma forma de protegerem-se contra os ataques inimigos. Infelizmente, os seres humanos não só se defendiam contra os ataques de outras espécies, mas tiveram que se defender de si próprios, contra indivíduos da sua própria espécie – o mal de Caim.

A coisa não mudou muito nesse tempo, uma vez que parece ser o próprio ser humano seu maior inimigo. Ao longo de nossa vida construímos relações de amizades e afetos, mas também relações capazes de nos destruir – tornam-se nossos inimigos (recomendo a leitura de um livro do Pe. Fábio de Melo chamado ‘Quem me roubou de mim?’). De uma maneira hipotética posso exemplificar amigos ou inimigos: pai, mãe, irmão, parentes, cônjuge, amigos, colegas de trabalho, patrão, etc… a lista se estende. Em todos esses tipos de relação podemos construir relações que edificam ou relações que destroem, podemos nos unir para nos protegermos contra os ataques de fora ou devemos nós mesmos nos protegermos contra os ataques internos.

O medo pode unir, mas afastar. Afasta quando utilizamos o medo contra o outro e nos defendemos por meio do ódio e do preconceito, da injúria, da calúnia, da inveja, da difamação, do erro, da ganância, e assim por diante. Por trás de tudo isso, na maioria das vezes, encontramos o medo: medo do outro ser melhor que eu, medo do outro me superar, medo do outro tomar meu lugar, medo do outro fazer melhor que eu. Voltamos, assim, ao início deste post: o inferno são os outros.

Fonte: Pinterest

Vivemos uma vida com medo. Contudo, o medo pode ser usado ao nosso favor, quando se criam relações que edificam (no caso dos primeiros seres humanos formando suas tribos), relações que geram segurança, proteção, respeito, partilha.

Ao encararmos o medo numa visão positiva, há união. Usa-se o medo como uma forma de construir pontes, ou seja, ligações, relacionamentos que se juntam. Ao passo que encarar o medo de forma negativa, faz com que construamos muros e barreiras, justamente porque almejamos evitar esse inferno, esse problema, esse percalço no caminho.

E aí? De que lado você prefere estar?

Newton dizia que “construímos muros demais e pontes de menos”.

Prefere construir pontes ou levantar muros?