Anormal?

A psicologia clínica é um dos campos de atuação da psicologia voltada para o estudo da mente, principalmente sua saúde. Há a especificidade de aperfeiçoar aspetos interpessoais e intrapessoais, além dos aspectos da própria história de vida do paciente. Dentre as abordagens psicológicas podem-se citar as abordagens comportamental, a psicanálise, a gestalt, dentre outras, estando as técnicas e os métodos vinculados a essas abordagens. Ela, a psicologia clínica, analisa as origens, as manifestações e os tratamentos para os distúrbios mentais envolvendo hábitos, pensamentos ou motivações. Esses distúrbios podem ser causados por fatores genéticos, ambientais, cognitivos ou neurológicos. As atribuições do psicólogo clínico não se limitam à uma perspectiva curativa (aspectos psicopatológicos) mas também à prevenção, redução das situações de risco e à melhoria da qualidade de vida. Infelizmente, ainda hoje há um certo preconceito ou um paradigma de que alguém que vai ao psicólogo ou psiquiatra pedir ajuda ser taxado como louco ou ‘anormal’.

Afinal de contas, como definir ‘anormal’? Embora seja muito fácil identificar pessoas aflitas ou com comportamento bizarro, a definição de normalidade e anormalidade não é algo tão simples assim.

Em sua ‘história da loucura’ (1961), Foucault mostra que a loucura não se trata de um dado biológico, da natureza, mas sim cultural, ou seja, cada época define seus limites para a normalidade e a anormalidade e se relaciona com a ‘loucura’ de acordo com o pensamento vigorante.

Assim, a normalidade está vinculada ao contexto histórico e social em que se vive. É só a partir do séc. XVII, a loucura é considerada como uma atitude daquele que está errado, uma vez que a razão é aquela que encaminha a humanidade para aquilo que é o certo e o correto. Inclusive, é nesse período que pessoas consideradas loucas (ou anormais) começaram a serem internadas em manicômios. No séc. XIX a visão do louco muda. Agora o louco não é mais um criminoso ou aquele que está errado, mas um doente. A classe médica ganha status de definir o que é normal e definir os padrões de tratamento para aqueles que fogem da normalidade. O que Foucault quer ressaltar é que cada época tem sua visão de normalidade e de que a ação frente à essa normalidade não depende unicamente do conhecimento que se detém, mas também do contexto histórico, cultural e social em que se está inserido.

Atitudes consideradas normais hoje em dia, outrora eram anormais; atitudes consideradas normais no passado, hoje são anormais.

Todavia, o problema de definir normalidade ainda persiste. Uma pessoa saudável, vivendo em uma sociedade doentia, seria considerada anormal? Pessoas que se recusam a aceitar regras tacanhas de crenças e comportamentos também seriam rotuladas de anormais, por não seguirem critérios normativos? Além disso, há de se apontar a diferença entre ator e observador (aquele que age / aquele que percebe), o que neste caso implicaria em uma percepção totalmente subjetiva da normalidade.

A propósito, o termo anormal remete a algo que foge da norma, da regra, do comum, do habitual. Sendo assim, pode-se dizer que pessoas extremamente altas ou baixas, extremamente inteligentes, talentosas ou atrasadas, por exemplo, são pessoas anormais.

Atualmente, as definições psicológicas para anormalidade se concentram em quatro critérios aceitos: angústia, desvio, disfunção e perigo. A anormalidade envolve dor e sofrimento, podendo ser agudo e crônico. Critérios como a má adaptação à vida cotidiana, a irracionalidade, imprevisibilidade, volatilidade, comportamentos anticonvencionais e constrangimentos são, também, considerados para delimitar o anormal do normal.

Adentrando o campo da psicanálise, a neurose é uma das três possibilidades de constituição do sujeito. Todo sujeito se constitui ao nascer à medida que faz experiências afetivas, emocionais, sociais, etc. Ao longo dessas relações vai-se construindo o ser de cada um, sua personalidade, o modo de estar com o outro: ou ele será um neurótico; ou será um perverso; ou será um psicótico. Para Freud, uma vez que toda a estrutura da personalidade se forma, a partir da sua relação dentro do Complexo de Édipo, o sujeito se ‘alinha’ em determinada estrutura e permanece assim, imutável (Winnicott, por outro lado, considera o trânsito entre as estruturas ao longo das experiências de vida).

A neurose se dá partir de um conflito, da divisão subjetiva, que fora recalcado no inconsciente. Como o objeto recalcado encontra-se no inconsciente, o sujeito não tem conhecimento de tal objetado, então ocorre uma simbolização de tal objeto ora recalcado. Dessa forma, a pessoa dentro dessa estrutura neurótica cria relações simbólicas com determinados objetos em vista de uma satisfação daquilo que fora recalcado – e como ocorre no inconsciente, a pessoa não toma conhecimento (ou posse) daquilo que a motiva a agir, pensar, sentir de determinada forma. A neurose pode ser dividida em subgrupos, a saber: histeria, neurose obsessiva e fobias.

Diferentemente do ocorre na neurose, na psicose há a falta do recalque, não se trata de algo que fora recalcado no inconsciente, mas uma falha na inscrição de algo que deveria ser inscrito e não fora. Na neurose ocorre o enfraquecimento de uma representação intolerável em tolerável, já na psicose o que ocorre é a separação radical e definitiva entre a representação intolerável e o eu, ocasionado a ‘expulsão’ dessa representação e com ela o fragmento afetivo de todo o indesejável, mergulhando o ‘eu’ em uma confusão alucinatória. Em outras palavras, como a representação não se instalou no simbólico, não há o retorno no simbólico, mas no real. Ficam evidentes assim, os sintomas na psicose como alucinações, delírios, intrusões e ecos de pensamentos, etc. A psicose pode ser dividida em subgrupos, a saber: esquizofrenia, paranoia e mania.

No caso da perversão, a forma de relacionar que ocorre na estrutura psíquica é da negação da representação, nesse caso, do princípio da castração. O retorno dessa representação que fora negada se dá por meio de um significante, neste caso, por exemplo, o fetiche. Por meio do fetiche, o perverso consegue administrar sua negação da castração afirmando-se como o legislador da lei, como o manipulador do outro, uma vez que o outro servirá ao meu bel prazer. A perversão pode se manifestar, além do fetiche, também nas práticas de sadismo e masoquismo e entrelaçam-se entre si, uma vez que estão muito próximas umas das outras.

Com isso exposto, tanto

a neurose, quanto a psicose e a perversão compõem a forma do sujeito se posicionar no mundo, fazem parte da leitura que se faz do outro.

Essas estruturas formam o quadro da normalidade, diferentemente do que se transmite pelo senso comum, ao afirmar que o neurótico, o psicótico ou o perverso são loucos, ou dito ‘anormais’. Para a psicanálise freudiana, a linha tênue entre normalidade e anormalidade seria identificada na intensidade na medida com que a pessoa vivencia os sintomas de sua determinada estrutura psíquica. Ou seja, quanto maior o grau do sintoma, maior o sofrimento. E é a partir desse sofrimento que se caracteriza a ‘anormalidade’ ou ‘desajuste’. Freud vai buscar nos meandros do inconsciente a compreensão e a cura (ou alívio) de determinado sintoma.

Concluindo, definir normal e anormal é uma habilidade de visão holística que vai além e ultrapassa qualquer ponto de vista unívoco, ultrapassa qualquer preconceito ou discurso unilateral.