Da sociologia para a psicanálise

De forma geral, poderíamos dizer que a personalidade é um determinante em nós que é formado por questões genéticas (características derivadas da nossa hereditariedade), o convívio social que vai desde os primeiros meses de vida, a educação recebida bem como valores arraigados, as amizades e contato com outras pessoas com quem se convive, a cultura dos antepassados bem como o contexto cultural. Além de todos esses fatores, há de se acrescentar o sistema cognitivo individual de cada pessoas que funciona como um filtro da realidade.

As experiências emocionais, os parentes, as amizades, os ídolos (aqueles que nos inspiram de alguma forma), a vida cultural são componentes de suma importância para a formação da personalidade de cada pessoa.

Nesse sentido, há, de certa forma, um movimento constante de interações entre sujeito e sociedade. De fato, a sociedade é uma construção humana, entretanto, cada pessoa, também, é, em certa medida, o resultado do meio social em que está inserido. Os laços sociais construídos ao longo da vida por cada indivíduo são fatores que determinam a personalidade desses mesmos sujeitos. São influenciados ao mesmo tempo em que influenciam. Afinal, nenhum ser humano está imune a essas interações sociais que ocorrem, ao menos que viva de modo isolado. A forma com que cada indivíduo assimila os códigos e padrões culturais e os elabora em si é o que constitui o processo de socialização, seja ele de modo primário ou secundário.

A personalidade, diríamos, que se trata do modo como cada indivíduo assimila e interpreta os códigos, os padrões e a linguagem social de acordo com sua própria configuração interna da psiqué. 

Num mundo globalizado no qual vivemos os grupos sociais de interação social e de identificação são inúmeros e tão homogêneos, que a própria identidade de determinado grupo social sofre influências dos demais ao mesmo tempo em que os influencia. Atualmente, os meios de comunicação de massa exercem um papel singular no que diz respeito a implementação efetiva de mecanismos de socialização nos diversos grupos sociais. Para o sociólogo alemão Georg Simmel, a sociedade resulta das interações sociais estabelecidas entre os indivíduos. Essas interações devem seguir um conjunto de parâmetros que as orientam e formam as suas bases. Essas interações se repetem embora o conjunto possa variar, como os modos de interações. O sociólogo Erving Goffman salienta que a interação social é realizada segundo as posições e os papéis executados por atores e grupos sociais e ocorre nas chamadas situações sociais, em um ambiente histórico e espacial definidos. Dentro dessa análise sociológica, pomos em relevo o indivíduo. Ele, o indivíduo, é o ator principal de todo esse aparato. Ele é quem interage, quem sente, quem pensa, quem executa. Ele é o responsável por disseminar e por assimilar; por problematizar e resolver; por expor pontos subjetivos e objetivos sobre determinado ponto. Da sociologia partimos para o indivíduo. Nessa engrenagem de funcionamento social, é ele quem se veste de determinados papéis para que essa mesma engrenagem possa funcionar – veste papéis sociais conforme o status social que ocupa, sendo eles vários papéis diferentes ao longo de um só dia.

Ao exposto, perguntamos sobre a própria elaboração individual de cada um frente à suas inúmeras interações sociais, no presente como no passado. Como as elabora? Como as interpreta? O que se passa no interior de cada um?

Para a psicanálise a formação da personalidade do sujeito ocorre nos primeiros anos de vida, quando as crianças precisam lidar com os conflitos entre os impulsos biológicos inatos, ligados às pulsões e às exigências sociais. Conforme Freud, a aparelho psíquico é formado por três instâncias, a saber, consciente, pré-consciente e inconsciente. A forma como esses três componentes lidam entre si é que o irá desencadear o processo de formação da personalidade. Ao longo de seus estudos, Freud percebeu que em todo indivíduo há uma série interminável de conflitos psíquicos. A um instinto opunha-se outro. Eram proibições sociais que bloqueavam pulsões biológicas e os modos de enfrentar situações que se chocavam. Assim, Ele (Freud) propõe a teoria estrutural de três instâncias na formação da personalidade, a saber: Id, Ego, Superego. Em vista desse conflito existente e atuante na psiqué humana a meta fundamental do todo seria manter e/ou recuperar um nível aceitável de equilíbrio dinâmico que maximizaria o prazer e minimizaria o desprazer. Como os conflitos são inevitáveis e incessantes, para Freud não haveria escapatória para a situação da psiqué; estaria ela fadada a existir em um estado neurótico, psicótico ou perverso.

Nessa relação entre socialização e psicanálise, fica evidente o fato de que

cada indivíduo interage em sociedade, afetando a si mesmo e aos outros, de forma potencializada ou indiferente. A cada interação com o ‘outro’ ocorre uma interação interna entre as instâncias psíquicas do sujeito que as assimila (em seu aparato psíquico) e as interpreta.

Dependendo da forma de elaboração dado pelas estruturas psíquicas, irá resultar em uma força que afetará sua personalidade. E essa personalidade afetada por uma elaboração assimilada do ‘outro’ pelas estruturas psíquicas, por sua vez, irão retornar ao ‘outro’.

Uma vez que o contexto social ocupa papel de destaque para a formação da personalidade do indivíduo, convém pormos em relevo certos mecanismos de defesa do psiquismo humano que se relacionam diretamente com o tema aqui abordado. São eles: projeção, introjeção e identificação.

No que tange ao mecanismo da ‘projeção’, a pessoa projeta para fora si sobre pessoas ou coisas, atributos de seu próprio inconsciente, mas que não são compatíveis ou tolerados. O sujeito projeta qualidades, sentimentos ou desejos que nega em si próprio. A intolerância, a inveja, o preconceito, por exemplo, podem facilmente ser interpretados sob a ótica da projeção.

A introjeção, por outro lado, é o oposto da projeção. Ao invés de ser lançado para fora aquilo que é inaceitável em si mesmo, a introjeção faz com que o indivíduo assimile aquilo que está extrínseca a ela, seja qualidade, sentimentos, modos de fazer e de ser, desejos, e assim por diante. Se a projeção faz com que o indivíduo se lance para fora de si mesmo, a introjeção permite que o outro seja lançado para dentro de si. Ao longo do convívio ente pessoas é comum pessoas tomarem o ‘jeitão’ de outras ou, ainda, passarem a ter os mesmos gostos e assim por diante.

No processo de identificação, a assimilação do outro é tão forte e intensa, que a introjeção de aspectos de outras pessoas passam a ser tomados como seus, transformando-os em seus. É como se a pessoa passasse a viver a sua própria vida à mercê dos outros, dependendo dos outros – da influência de outras pessoas. É uma busca constante por identificar-se com alguém que esquece de si mesmo. A identificação pode ser total ou parcial, dependendo dos casos. De certa forma, pessoas com baixa autoestima passam muito por isso.

Os três mecanismos de defesa aqui expostos ilustram nitidamente o aspecto psicanalítico entre as interações sociais que ocorrem entre as pessoas, e como essas mesmas interações se entrelaçam no emaranhado do psiquismo humano, nas cadeias de suas estruturas.

Um cenário doentio da sociedade

Segundo Bauman (1998), há três pilares notórios da modernidade, a saber: a beleza, a pureza e a ordem. De forma sucinta, a beleza diz respeito à harmonia e perfeição da forma; a pureza no que diz respeito ao tocante da civilização e toda forma contrária desta deve ser banida; a ordem como repetição de um regulamento estabelecido de forma internalizada. Neste contexto é que está inserida a figura de Freud, o contexto da modernidade, de uma sociedade positivista. Mas também é nesse contexto que Bauman faz a leitura freudiana de ‘o mal-estar na civilização’.

Como é feita a negociação na sociedade entre as pessoas com os conceitos de segurança, liberdade, felicidade? Segundo Freud ‘a civilização se constrói sobre uma renúncia ao instinto. Ela (a civilização) impõe grandes sacrifícios à sexualidade e agressividade do homem. O anseio de liberdade, portanto, é dirigido contra formas e exigências particulares da civilização ou contra a civilização como um todo […] Os prazeres da vida civilizada vêm num pacote fechado com os sofrimentos, a satisfação com o mal-estar, a submissão com a rebelião’ (1930).

Há de se destacar os princípios do prazer e da realidade como determinantes dentro do contexto em que se pretende explicitar. Uma vez que a civilização trata de uma ordem imposta a uma humanidade naturalmente desordenada, há a redução do princípio do prazer pelo da realidade. Todo ser humano vive o conflito, desde seu nascimento, entre o princípio do prazer (o desejo) e o princípio da realidade (imposição social). Ao nascer, a criança é dominada pelo princípio do prazer, o qual rege a instância do Id. O Id, querendo satisfazer seus desejos mais primitivos, assim o faz. Conforme essa criança vai crescendo e amadurecendo, passando pelas fases de desenvolvimento sexuais psíquicos, o Ego – regido pelo princípio da realidade – tenta satisfazer os desejos e impulsos do Id, mas adequando-os à vida social. Essa adequação, de certa forma, acontece à medida que os valores, crenças e juízos do superego vão cristalizando-se.

Ora, a imagem a ser desenhado no quadro aqui exposto consiste de um lado a civilização que impõe (como o superego) seus limites, valores, crenças e ordens; do outro lado, o sujeito que quer imperar pela sua liberdade de escolha (à vista do Id que quer satisfazer seus impulsos). Se de um lado há a sociedade que impõe, por outro lado o Id que também quer se impor, no meio dessa encruzilhada encontra-se o coitado Ego querendo agradar ‘gregos e troianos’ – há uma tentativa de encontrar a melhor forma possível de atender aos desejos do Id adequando-os à realidade. Seria o acordo entre as partes iluministas e positivistas, entre Id e Superego, entre sociedade e individualidade.

Ocorre que hoje os dados da OMS relativos aos transtornos mentais apontam que em 2020 a depressão nervosa passará ser a segunda maior causa de mortes por doença no mundo, após somente de doenças cardíacas. Estima-se que o risco de desenvolver depressão, ao longo da vida, seja de 10% para os homens e de 20% para as mulheres. As causas podem ser de origem orgânica ou psíquica. Para a psicanálise, interessa os casos onde as causas são psíquicas (mesmo sendo causas de origem orgânica, recomenda-se o acompanhando de análise). O quadro apontado pela OMS é preocupante, porém, a depressão é apenas um de tantos outros distúrbios psíquicos. Segundo informativo do OPAS, existem diversos transtornos mentais, com apresentações diferentes. Eles geralmente são caracterizados por uma combinação de pensamentos, percepções, emoções e comportamento anormais, que também podem afetar as relações com outras pessoas. Entre os transtornos mentais, estão a depressão, o transtorno afetivo bipolar, a esquizofrenia e outras psicoses, demência, deficiência intelectual e transtornos de desenvolvimento, incluindo o autismo. O quadro exposto se trata de consequência daquilo que Freud já identificara – o conflito entre os princípios do prazer e realidade.

Para Freud, se tratando de distúrbios psíquicos, há uma causa a ser identificada. A origem pode ser tanto um desejo sexual infantil reprimido ou recalcado ou um trauma com forte carga emocional gerando uma hipercatexia. No conflito psíquico interno, ora sobressai o Id, ora o Superego, ora o Ego. As neuroses, por exemplo, são manifestações de desejos reprimidos pelo inconsciente, de modo imperfeito, que se manifestam de alguma forma, uma vez que o Ego é incapaz de lidar com esses desejos reprimidos sem sofrer – daí então a máscara da manifestação dos desejos como sintomas neuróticos. Sendo assim, para cada sintoma diferente, um tipo de neurose diferente. Os mecanismos de defesa se tratam de formas brandas de resistir e contornar os conflitos internos e dificuldades de lidar com alguns aspectos da realidade externa. Na neurose, a ponte com realidade é mantida, graças a esses mecanismos de defesa; já no quadro psicótico, por exemplo, a pessoa constrói, por assim dizer, uma realidade paralela, uma vez que seu conflito não se restringe ao mundo interno, mas sim à realidade externa.

O parêntese aberto ao citar brevemente o entendimento de Freud, serve para expor um segundo conceito do sociólogo Bauman, o da modernidade líquida. Os tempos líquidos em que a sociedade vive atualmente contrasta abruptamente com a realidade do séc. XX, citado no início do texto: da beleza, da pureza e da ordem. A sociedade hoje, sofre as consequências das sociedades anteriores, no entanto, continua a criar seus próprios doentes. Conforme citado, a depressão, por exemplo, será a segunda maior causa de morte. Os laços frágeis que são criados nas relações, os vínculos demasiadamente superficiais, a sociedade do ‘fast’, vive o conflito interno, assim como os homens e mulheres das sociedades anteriores. De certa forma, na era atual a gama de opções a escolher é vasta, porém, ao escolher um abre-se mão do outro; esse cenário, dentro de uma sociedade que vive a liquidez, não é satisfatório, gerando, assim, diversas ordens de conflitos internos – ou melhor, provocando os distúrbios mentais.

A ideia de um conflito entre o princípio da realidade e o princípio do prazer é tão atual e há muito ainda a ser compreendido sobre a esfera do conflito interno frente à realidade vivenciada por cada indivíduo.