Clichês

Então, tava aqui pensando:

Sabe aquelas cumprimentos que as pessoas usam habitualmente?

Oi. Tudo bem?

Será que as pessoas querem mesmo saber se está tudo bem com você, como anda a sua vida?

Será que aqueles que estão cumprimentando, realmente se importam com você?

Na Idade Média havia uma disputa teórica muito intensa entre os nominalistas e os realistas. Os realistas diziam que os nomes, as palavras carregam a essência das coisas, ou seja, a palavra maçã não é apenas uma maça, mas traz em si, o objeto maçã. Neste exato momento, por exemplo, você nem estava pensando em maçã, mas só o fato de eu mencionar uma maçã você já pensou nela. Por outro lado, os nominalistas diziam que a palavra maçã (seguindo o mesmo exemplo) seria apenas um nome qualquer, pois o objeto (no caso, a fruta) poderia ter qualquer outro nome, mas não deixaria de ser a fruta em si.

Meio confuso, mas vamos lá…

Quando as pessoas cumprimentam as pessoas perguntando como elas estão, será que realmente querem saber isso (realista) ou é apenas uma palavra qualquer (nominalista)?

E quando dizem: “Se você está feliz então está tudo bem”. Será que querem realmente dizer isso? Será que sua felicidade é algo tão precioso assim para aquela pessoa, a ponto de colocar sua opinião e seu ponto de vista em segundo plano?

Ou será apenas mais um clichê?

Parece que nso prendemos tanto à superficialidade, à aparência.. que hoje em dia ser honesto consigo mesmo, com o outro, ser sincero é quase um crime, visto como estranho. Estranho isso, não?

Não me parece que seja maldade. Assim não seria uma atitude hipócrita ou de falsidade. Mas simplesmente falar por falar, sem sequer prestar conta daquilo que se está falando. Falar por falar, fazer por fazer, sentir por sentir, pensar por pensar… Parece mais atitudes que entramos no automático e, infelizmente, esquecemos do real significado de cada coisa.

O que acha?

Clichês

Então, tava aqui pensando:

Sabe aquelas cumprimentos que as pessoas usam habitualmente?

Oi. Tudo bem?

Será que as pessoas querem mesmo saber se está tudo bem com você, como anda a sua vida?

Será que aqueles que estão cumprimentando, realmente se importam com você?

Na Idade Média havia uma disputa teórica muito intensa entre os nominalistas e os realistas. Os realistas diziam que os nomes, as palavras carregam a essência das coisas, ou seja, a palavra maçã não é apenas uma maça, mas traz em si, o objeto maçã. Neste exato momento, por exemplo, você nem estava pensando em maçã, mas só o fato de eu mencionar uma maçã você já pensou nela. Por outro lado, os nominalistas diziam que a palavra maçã (seguindo o mesmo exemplo) seria apenas um nome qualquer, pois o objeto (no caso, a fruta) poderia ter qualquer outro nome, mas não deixaria de ser a fruta em si.

Meio confuso, mas vamos lá…

Quando as pessoas cumprimentam as pessoas perguntando como elas estão, será que realmente querem saber isso (realista) ou é apenas uma palavra qualquer (nominalista)?

E quando dizem: “Se você está feliz então está tudo bem”. Será que querem realmente dizer isso? Será que sua felicidade é algo tão precioso assim para aquela pessoa, a ponto de colocar sua opinião e seu ponto de vista em segundo plano?

Ou será apenas mais um clichê?

Parece que nso prendemos tanto à superficialidade, à aparência.. que hoje em dia ser honesto consigo mesmo, com o outro, ser sincero é quase um crime, visto como estranho. Estranho isso, não?

Não me parece que seja maldade. Assim não seria uma atitude hipócrita ou de falsidade. Mas simplesmente falar por falar, sem sequer prestar conta daquilo que se está falando. Falar por falar, fazer por fazer, sentir por sentir, pensar por pensar… Parece mais atitudes que entramos no automático e, infelizmente, esquecemos o real significado de cada coisa.

O que acha?

Uma nova visão

O filósofo Jean-Paul Sartre (1905-1980) não concebia uma natureza humana, mas sim uma condição humana de existência, ou seja, um conjunto de limites a priori concebidos para esboçarem a situação fundamental do sujeito no universo. Segundo ele, um desses limites a priori é a liberdade, visto que é o seu exercício que move o ser humano durante a sua breve existência. É ela, a liberdade, em seu exercício, que definirá o ser humano enquanto tal.

Se para o filósofo, a liberdade é o valor constituinte da condição humana, e seu exercício é o que o definirá enquanto tal, a máxima sartreana “Não importa o que fizeram de você, mas sim o que você faz com aquilo que fizeram de você”, então as inúmeras situações que passamos por nossas vidas devem, necessariamente, passar por uma ressignificação por nós mesmos. Ou seja, se trata de dar uma interpretação autoral para cada situação que vivenciamos – não se trata de simplesmente assumir aquilo que vem de fora como sendo seu, como situações impostas pela vida e pronto. Se elaborar é justamente a ressignificação de um trauma, a partir do momento que o exercício da liberdade conduz o ser humano à refazer/modificar aquilo que fizeram com ele, a passagem de um processo de heteronomia para a autonomia fica cada vez mais evidente. Neste ponto, convergem a psicanálise freudiana e o existencialismo sartreano.

A vida do sujeito pode ser marcada por diversos eventos, mas é imprescindível que esses eventos sejam postos à mesa e ressignificados. Definitivamente, cada um de nós deve exercer o direito de opinar sobre sua própria vida, deve ter o direito de se manifestar sobre si mesmo. Tem, não só o direito, mas o dever, de sair da platéia, ou de um papel coadjuvante de sua história para exercer o papel principal.

  • Vai ficar no anonimato em sua própria vida até quando?
  • Vai permitir que os outros ditem a sua vida até quando?

“Não importa o que fizeram com você, mas sim, o que você faz com aquilo que fizeram com você”

Você pode tomar uma postura conformista, uma postura de lamentação, uma postura de abstrair e seguir em frente, uma postura de reviravolta e transformar aquilo em uma potência em sua vida.

Recordar, Repetir, Elaborar

Freud, em 1914, publica uma obra intitulada ‘Recordar, Repetir, Elaborar’, na qual aborda a respeito de recomendações técnicas sobre a psicanálise. Abandonando o método catártico e adotando o método da associação livre, discorre sobre a importância de serem superadas as resistências postas ao inconsciente de memórias suprimidas que podiam, ou não, ocasionarem em um determinado trauma.

A associação feita por Freud é que o sintoma de uma neurose é, na verdade, a lembrança de um trauma. Esse(s) sintoma(s), então, ocupam o lugar do trauma – são, assim, um ‘recordar’ do trauma. A recordação inconsciente de determinado trauma resulta na repetição de determinado sintoma. Há certo entrelaçamento entre esses dois conceitos. Todavia, cabe ressaltar que o sintoma é sempre uma lembrança distorcida do trauma; trauma este que fora recalcado no inconsciente por certa censura devido à incompatibilidade entre o trauma, a realidade e o ego. Por sua vez, o ‘recordar’ se dá de modo efetivo por meio da transferência, como uma oportunidade de recordação do trauma. De forma sucinta, podemos dizer que o sintoma, a transferência, o sonho são formas de recordar o que fora recalcado, ou seja, o retorno do recalcado.

Segundo Freud, ao recordar de determinado conteúdo reprimido, o sujeito dar-se conta de si – o que denomina por insight, trazendo à tona aquele trauma e não havendo mais necessidade de recalcá-lo – ornando-o de sentido dentro de uma nova cadeia de memórias. Uma vez que houve o insight (esse ‘dar-se conta’ de algo) urge a exigência de uma delicada elaboração, uma nova interpretação. Nesse sentido é que Freud emprega o termo ‘elaborar’ (a raiz do termo elaborar está em labor, do latim, trabalho).

O trabalho que se exige a partir do insight é uma reelaboração do trauma, restabelecendo uma nova conexão e posicionamento frente ao trauma, o que passa a ser perceptível por meio do sintoma, uma vez que vai se esvaindo. A técnica psicanalítica aqui exposta discorre a respeito de que a recordação de um determinado trauma vivido no passado é repetido no presente por meio do sintoma, que uma vez havendo o insight, necessita de uma elaboração para o futuro.

Pílula 02: Lar doce lar

Sabe aquelas inscrições do tipo ‘lar doce lar’? Então, você já se questionou sobre o significado de um lar?

As pessoas moram juntas em suas casas, mas não conseguem construir um lar. Possuem (ou não) casa na praia, no campo, sítios, apartamentos, etc… Mas falta um lar.

Um lar está infinitamente além de uma casa. Um lar diz respeito aos vínculos que são construídos por aquele grupo de pessoas. Uma casa é só um aglomerado de materiais para abrigo.

Confundir um lar com uma casa é o mesmo que confundir família com parente.

Da sociologia para a psicanálise

De forma geral, poderíamos dizer que a personalidade é um determinante em nós que é formado por questões genéticas (características derivadas da nossa hereditariedade), o convívio social que vai desde os primeiros meses de vida, a educação recebida bem como valores arraigados, as amizades e contato com outras pessoas com quem se convive, a cultura dos antepassados bem como o contexto cultural. Além de todos esses fatores, há de se acrescentar o sistema cognitivo individual de cada pessoas que funciona como um filtro da realidade.

As experiências emocionais, os parentes, as amizades, os ídolos (aqueles que nos inspiram de alguma forma), a vida cultural são componentes de suma importância para a formação da personalidade de cada pessoa.

Nesse sentido, há, de certa forma, um movimento constante de interações entre sujeito e sociedade. De fato, a sociedade é uma construção humana, entretanto, cada pessoa, também, é, em certa medida, o resultado do meio social em que está inserido. Os laços sociais construídos ao longo da vida por cada indivíduo são fatores que determinam a personalidade desses mesmos sujeitos. São influenciados ao mesmo tempo em que influenciam. Afinal, nenhum ser humano está imune a essas interações sociais que ocorrem, ao menos que viva de modo isolado. A forma com que cada indivíduo assimila os códigos e padrões culturais e os elabora em si é o que constitui o processo de socialização, seja ele de modo primário ou secundário.

A personalidade, diríamos, que se trata do modo como cada indivíduo assimila e interpreta os códigos, os padrões e a linguagem social de acordo com sua própria configuração interna da psiqué. 

Num mundo globalizado no qual vivemos os grupos sociais de interação social e de identificação são inúmeros e tão homogêneos, que a própria identidade de determinado grupo social sofre influências dos demais ao mesmo tempo em que os influencia. Atualmente, os meios de comunicação de massa exercem um papel singular no que diz respeito a implementação efetiva de mecanismos de socialização nos diversos grupos sociais. Para o sociólogo alemão Georg Simmel, a sociedade resulta das interações sociais estabelecidas entre os indivíduos. Essas interações devem seguir um conjunto de parâmetros que as orientam e formam as suas bases. Essas interações se repetem embora o conjunto possa variar, como os modos de interações. O sociólogo Erving Goffman salienta que a interação social é realizada segundo as posições e os papéis executados por atores e grupos sociais e ocorre nas chamadas situações sociais, em um ambiente histórico e espacial definidos. Dentro dessa análise sociológica, pomos em relevo o indivíduo. Ele, o indivíduo, é o ator principal de todo esse aparato. Ele é quem interage, quem sente, quem pensa, quem executa. Ele é o responsável por disseminar e por assimilar; por problematizar e resolver; por expor pontos subjetivos e objetivos sobre determinado ponto. Da sociologia partimos para o indivíduo. Nessa engrenagem de funcionamento social, é ele quem se veste de determinados papéis para que essa mesma engrenagem possa funcionar – veste papéis sociais conforme o status social que ocupa, sendo eles vários papéis diferentes ao longo de um só dia.

Ao exposto, perguntamos sobre a própria elaboração individual de cada um frente à suas inúmeras interações sociais, no presente como no passado. Como as elabora? Como as interpreta? O que se passa no interior de cada um?

Para a psicanálise a formação da personalidade do sujeito ocorre nos primeiros anos de vida, quando as crianças precisam lidar com os conflitos entre os impulsos biológicos inatos, ligados às pulsões e às exigências sociais. Conforme Freud, a aparelho psíquico é formado por três instâncias, a saber, consciente, pré-consciente e inconsciente. A forma como esses três componentes lidam entre si é que o irá desencadear o processo de formação da personalidade. Ao longo de seus estudos, Freud percebeu que em todo indivíduo há uma série interminável de conflitos psíquicos. A um instinto opunha-se outro. Eram proibições sociais que bloqueavam pulsões biológicas e os modos de enfrentar situações que se chocavam. Assim, Ele (Freud) propõe a teoria estrutural de três instâncias na formação da personalidade, a saber: Id, Ego, Superego. Em vista desse conflito existente e atuante na psiqué humana a meta fundamental do todo seria manter e/ou recuperar um nível aceitável de equilíbrio dinâmico que maximizaria o prazer e minimizaria o desprazer. Como os conflitos são inevitáveis e incessantes, para Freud não haveria escapatória para a situação da psiqué; estaria ela fadada a existir em um estado neurótico, psicótico ou perverso.

Nessa relação entre socialização e psicanálise, fica evidente o fato de que

cada indivíduo interage em sociedade, afetando a si mesmo e aos outros, de forma potencializada ou indiferente. A cada interação com o ‘outro’ ocorre uma interação interna entre as instâncias psíquicas do sujeito que as assimila (em seu aparato psíquico) e as interpreta.

Dependendo da forma de elaboração dado pelas estruturas psíquicas, irá resultar em uma força que afetará sua personalidade. E essa personalidade afetada por uma elaboração assimilada do ‘outro’ pelas estruturas psíquicas, por sua vez, irão retornar ao ‘outro’.

Uma vez que o contexto social ocupa papel de destaque para a formação da personalidade do indivíduo, convém pormos em relevo certos mecanismos de defesa do psiquismo humano que se relacionam diretamente com o tema aqui abordado. São eles: projeção, introjeção e identificação.

No que tange ao mecanismo da ‘projeção’, a pessoa projeta para fora si sobre pessoas ou coisas, atributos de seu próprio inconsciente, mas que não são compatíveis ou tolerados. O sujeito projeta qualidades, sentimentos ou desejos que nega em si próprio. A intolerância, a inveja, o preconceito, por exemplo, podem facilmente ser interpretados sob a ótica da projeção.

A introjeção, por outro lado, é o oposto da projeção. Ao invés de ser lançado para fora aquilo que é inaceitável em si mesmo, a introjeção faz com que o indivíduo assimile aquilo que está extrínseca a ela, seja qualidade, sentimentos, modos de fazer e de ser, desejos, e assim por diante. Se a projeção faz com que o indivíduo se lance para fora de si mesmo, a introjeção permite que o outro seja lançado para dentro de si. Ao longo do convívio ente pessoas é comum pessoas tomarem o ‘jeitão’ de outras ou, ainda, passarem a ter os mesmos gostos e assim por diante.

No processo de identificação, a assimilação do outro é tão forte e intensa, que a introjeção de aspectos de outras pessoas passam a ser tomados como seus, transformando-os em seus. É como se a pessoa passasse a viver a sua própria vida à mercê dos outros, dependendo dos outros – da influência de outras pessoas. É uma busca constante por identificar-se com alguém que esquece de si mesmo. A identificação pode ser total ou parcial, dependendo dos casos. De certa forma, pessoas com baixa autoestima passam muito por isso.

Os três mecanismos de defesa aqui expostos ilustram nitidamente o aspecto psicanalítico entre as interações sociais que ocorrem entre as pessoas, e como essas mesmas interações se entrelaçam no emaranhado do psiquismo humano, nas cadeias de suas estruturas.

O que é o amor?

Os povos gregos da Antiguidade tinham uma concepção de amor mais desenvolvida do que a que temos hoje. Para eles, amor não é um conceito que abarca uma infinidade de gestos, atitudes, sentimentos, etc. Essa é a ideia que se tem hoje a respeito do amor. Um irá dizer que amor é sentimento, outro que é decisão racional consciente, outro que é afeto, outro que é atitudes, e assim por diante.

Para os gregos, amor não é amor, mas classificações dele. De antemão podemos entender o amor em, pelo menos, três esferas (expondo as mais significativas). A primeira dessas esferas se trata do amor enquanto Eros. Foi o filósofo Platão quem citou o Eros como a esfera do amor. Ele (Eros) é desejo, e conforme o filósofo, só se deseja aquilo que não se tem. Assim, a primeira esfera do amor é desejo. Se há desejo, há amor – ao passo que que falta desejo, falta amor. Aristóteles, outro filósofo grego e discípulo de Platão, já entendia o amor de uma forma diferente. Se para Platão amor era desejo (de forma a viver uma espécie de ausência daquilo), para Aristóteles o amor se trata de Philia. Ele a entendia como sendo uma relação não de desejo, mas de alegria e de contentamento. Se Eros é desejo, e só se deseja aquilo que não tem, Philia é alegria, júblio por aquilo que se tem. Estaria, portanto, Eros na esfera do privado, uma que o desejo quer privacidade, não ser revelado; e estaria Philia na esfera do público, ao passo que a alegria não se retrai, mas se expande. O desejo no escondido, a alegria no revelado.

De uma forma bem supérflua, diríamos que Eros abarca a esfera do romance, do erotismo, da paixão. Já Philia abrange a amizade, os relacionamentos entre pais e filhos, amigos. Mas há ainda um terceiro viés a mencionar: o Ágape. Os antigos entendiam ágape como um amor que transcende a materialidade, se trata de uma ligação de espírito – muito mais voltado para aspectos caritativos e de generosidade. Fazer um bem a outra pessoa é ter um gesto de amor voltado para o Ágape; construir uma amizade sincera e verdadeira (não coleguismo) volta-se para a Philia; estar envolto de desejo e ardendo de paixão por algo ou alguém é voltar-se para o Eros.  

Já ouvi pessoas dizendo que amor verdadeiro só amor de pai e mãe. Oras… Será que existe amor falso? Só o fato de ser falso, já não é amor. Concorda? Não gostaria de entrar em aspectos religiosos nesse texto. Basta dizer que entre casais que se apaixonam existe amor sim; entre amigos verdadeiros, há amor sim; entre gestos de gratidão, reconhecimento, acolhimento e caridade, há amor sim. Cada um mediante uma esfera daquilo que se entende por amor. Um casal, por exemplo, que não se deseja, como dizer que se amam? Um casal que não se alegre na companhia do outro, como dizer que se amam? Um casal onde um não é capaz de fazer algo extraordinário por outro, como dizer que se amam?

O amor vai muito além daquilo que imaginamos. Falando do meu ponto de vista, se retirar o amor da vida, extingue-se a própria vida. Afinal, o amor é o grande motor que movimenta a vida humana, nas suas mais diversas maneiras de vivenciá-lo.

E você, o que acha disso?

Aquele abraço!

“É preciso sair da ilha para ver a ilha”

frase icônica de José Saramago.

Para apreciar uma paisagem, seja ela qual for, é preciso estar fora dela, do contrário, você sempre irá apreciar o seu redor. Estando numa praia paradisíaca, você aproveita o momento curtindo, mas pouco é capaz de contemplar a beleza daquele lugar estando ali, será necessário afastar pela costa para apreciar aquele paraíso. Concorda?

Você já reparou que você não consegue se ver se não for por meio de um reflexo? Seja, num espelho, uma imagem refletida na água, no vidro, uma fotografia, etc… Para se ver, você precisa de um reflexo. Caso contrário, ficará fadado a contemplar seu umbigo e a ponta do nariz (risos).

Obviamente, há um processo por trás disso que estou falando. Olhar a si mesmo por meio de uma imagem é o mesmo que sair de si. Credo! Sair de si mesmo para se ver como tal.

Deixe sua imaginação fluir no que estou dizendo: é como se a sua consciência, por um momento, saísse do seu corpo. Ali, então, você conseguiria captar a imagem de si como você realmente é, você conseguiria contemplar a si mesmo, por conta que a sua imagem está fora de você mesmo – foi projetada para fora.

Claro que não estou falando de qualquer tipo de espiritismo ou realismo surreal, ou qualquer tipo de fantasia. Só um modo de exemplificar o processo.

Assim, para se ver, de alguma forma a imagem de quem você é deve ser projetada para fora de você mesmo. Assim, você consegue ver seu corpo. Mas também pode projetar seus pensamentos, seus sentimentos, suas atitudes, a ponto de se ver em outras pessoas, pelo menos aquele ‘algo’ específico. Está entendendo?

Agora vamos supor que numa relação entre pessoas (e espero que você se socialize), ambos tenham a grande dificuldade de se projetar para fora de si. Nesse caso, estariam fadados ao fracasso nessa relação (seja uma relação amorosa, pessoal, profissional, fraterna, e assim por diante). Não haveria modo de se entenderem, pois ambos só conseguem enxergar a partir de seu ponto de vista – precisam desenvolver a habilidade de sair de si mesmo e olhar como alguém de fora – como disse acima, só conseguem olhar para seu próprio umbigo.

Pois bem, quem sou, como estou, o que faço, como faço, o que penso, como penso, o que sinto, como sinto… (ufa) requer uma autoanálise de sair de si mesmo e se enxergar com os olhos de quem vê de fora. Nesse caso, o outro me vê, me percebe, me sente de uma forma diferente da minha. Será que a forma que ele sente é a forma que eu sinto? Mas por que será que ele sente dessa forma? Por que será que ele percebe dessa forma?

O outro pode ser o outro, como também pode ser eu. A partir do momento que eu saio de mim para entender o mundo como a outra pessoa entende, para sentir como a outra pessoa sente me torno o outro, visto o papel do outro em minha vida. Posso ser o outro para mim mesmo, como posso ser o outro para o outro. Enxergar o outro do ponto de vista do outro e confrontar com o meu. Eita exercício hercúleo esse.

O nome dado a esse processo de sair de si, se soltar do seu ponto de vista e ver a partir do ponto de vista do outro é a chave para a EMPATIA.

Diga-se de passagem, como há escassez de empatia hoje em dia… sobra antipatia! Parece faltar empatia para com o outro e para consigo mesmo. Infelizmente.

Pessoas fechadas em seu mundo, em seu ponto de vista, em seu modo de ser, de pensar, de agir… Tão presas em si, que são incapazes para ‘o novo’ em suas vidas. Estão acostumadas a prisão em que se colocaram que perderam a expectativa do ‘e se?’. Perderam de vista as possibilidades, tudo porque se fecharam em seus pontos de vista e excluíram a possibilidade do outro, inclusive a possibilidade delas mesmas se verem como o outro.

Pense em como a sua vida daria um verdadeiro ‘up’ com a vivência da empatia. Pensou?

Uma linguagem do inconsciente

O filme Matrix foi lançado em 1999 no meio da efervescência do bug do milênio. O filme junta filosofia com tecnologia por meio de um enredo que prende qualquer pessoa, onde um jovem programador (Thomas Anderson – Keanu Reeves) e hacker se vê preso em um mundo de ilusão que até então acreditava ser o real. Todavia, esse mundo que julgava ser o real, era apenas uma imagem produzida em seu cérebro por inteligências artificias superdesenvolvidas que escravizam os humanos, alimentando-se da energia de seus corpos, mas mantendo-os em um estado de consciência induzida e programa. Há várias cenas a serem consideradas como relevantes. Contudo, para o objetivo deste texto, vamos no focar no diálogo entre Neo (Keanu Reeves) e Morpheus (Líder da resistência humana interpretado por Laurence Fishburne), no qual é proposta a escolha entre a pílula azul ou a vermelha.

“Esta é a sua última chance. Depois disso, não há como voltar atrás. Você toma a pílula azul – A história acaba, e você acorda em seu quarto e acredita no que quiser acreditar. Se tomar a pílula vermelha vai permanecer no País das Maravilhas e eu te mostrarei o quão profundo é o buraco do coelho”

A alusão ao mundo de Alice faz total sentido ao que se realizará em Neo. Um mundo, até então desconhecido por ele, mas que se trata do mundo como é, ou seja, experimentar a pílula vermelha, seria ‘cair no buraco do coelho’ e encontrar a verdade sobre si.

A partir deste ponto, a referência a Sigmund Freud é quase inevitável. Ele mesmo se intitula como a terceira ferida narcísica da humanidade, sendo a primeiro o golpe dado por Copérnico ao demonstrar que o homem não é centro do universo; o segundo golpe dado por Darwin ao teorizar sobre o evolucionismo das espécies na natureza, inclusive a espécie humana; e – finalmente – o terceiro golpe dado por Freud ao demonstrar de modo lúcido e eloquente o inconsciente. Assim, o homem não é o centro do universo, não é a criação mor da natureza, nem é dono de si mesmo, vendido ao seu inconsciente.

A sensação de não saber se está acordado ou dormindo é a relação que procuramos entre Matrix, Alice e Freud. Tanto em Matrix quanto em Alice nos deparamos com mundo, outra realidade outrora desconhecidas ou inacessíveis. O mesmo se dá com Freud, visto que há uma instância inacessível ao homem consciente e crente de si mesmo, a saber, o inconsciente.

Ainda nos resta outro personagem para compor nossa mesa, o filósofo Wittgenstein que muito nos acrescentará a essa nossa conversa. Ele preocupou-se com as formas e o funcionamento da linguagem, ou seja, o centro de sua obra é a lógica entendida como área do conhecimento que se ocupa com a linguagem simbólico-científica. Os jogos de linguagem ilustrados por Wittgenstein consistiam em utilizar a linguagem para representar o objeto determinando a partir dela a concepção da realidade. Em outras palavras, a realidade só faz sentido se essa perpassa pela linguagem, ou seja, a linguagem é quem fornece todo o sentido para a realidade se fazer enquanto tal. Porém, mencionamos aqui que há vários discursos, várias linguagens, várias comunicações distintas umas das outras, cada uma com sua gramática específica. Não se trata de um idioma, mas sim de toda forma de comunicação e discurso.

Assim posto, temos a configuração da Matrix e Alice como expoentes do diálogo emblemático entre Freud e Wittgenstein (os dois foram contemporâneos, diga-se de passagem), cada qual expondo o seu pensamento.

Mas qual relação podemos fazer entre tudo isso? É possível obtermos um diálogo que gere algum consenso entre um filósofo antimetafísico e o pai da psicanálise que funda seus conceitos, principalmente, abarcando-os no campo da metafísica?

Wittgenstein considera que a linguagem é o limite do pensamento e o limite do pensamento são os fatos. Assim, pensar em uma Matrix chega a ser um absurdo. Todavia, mesmo que seja um absurdo, essa mesma Matrix deverá ser comunicável, ou seja, deve estar embasada sobre o fundamento da lógica, a ponto de ser cognoscível. A linguagem se refere aos fatos e só sobre eles, não às coisas. Dizer que o garoto está sentado é um fato, mas só o garoto não é um fato, é uma coisa. A linguagem pode falar sobre o mundo retratando-o de um modo que concorde com a realidade, excluindo todo e qualquer subjetivismo ou doutrina. Aquilo que colocamos em relevo é a linguagem como uma imagem-espelho do mundo.

Supomos, então, tratarmos em termos de equivalência, a Matrix como o mundo em que vivemos, mas não que haja uma outra realidade extrínseca a cada um de nós, mas sim, um plano paralelo intrínseco, o qual chamaremos de ‘inconsciente’. Seria, então, o inconsciente, o ‘senhor de nós mesmos’, e não o consciente. Tomar a pílula vermelha, nesse caso, seria aventurar-se no ‘mundo das maravilhas do inconsciente’. Portanto, requer sair de seu estado atual, independente de qual seja o nome dado, e adentrar-se em si mesmo.

Ocorre que o inconsciente é inacessível. Será mesmo? Ao longo de seus estudos, Freud abandonou a hipnose e adotou o método da associação livre. Por meio desse método, Freud conseguira alcançar recônditos do inconsciente que outrora estavam ocultos ao sujeito. Nesse caso, a linguagem da pessoa fora fundamental para a investigação do ‘fato’. Contudo, não é esse o ponto principal que adotamos nesse paralelo entre nossos autores. Para Freud, por exemplo, um sonho é a manifestação do inconsciente, projetando imagens (muitas das vezes sem sentido algum), oriundas de cargas emocionais que foram, de alguma forma, armazenadas nele (o inconsciente). Portanto, podemos afirmar que um sonho é uma das maneiras que o inconsciente encontra de driblar os mecanismos de defesa e expressar-se – ou seja, a sua linguagem. Da mesma forma que a linguagem não se importa com o objeto, mas o fato, o inconsciente não faz referência ao objeto, mas à relação – ele é ligado no modo simétrico e não assimétrico. Chegamos, assim, no ponto chave – o sonho como uma linguagem do inconsciente.  

A imagem apresentada neste texto sugere que, analogamente falando, o inconsciente seria a nossa real versão, que comunica-se, dentre outras formas, por meio do sonho com seus conteúdos manifestos e latentes. Contudo, a linguagem é sobre ‘fatos e não coisas’. Assim, essa linguagem onírica deve ser decifrada. A decifração dessa linguagem revela um fragmento ou vários fragmentos específicos do inconsciente. Se para Wittgenstein, a linguagem é o que dá sentido aos fatos e que os fatos dão sentido à linguagem, nessa ida e vinda entre Matrix e o Mundo das maravilhas, nos deparamos com a figura do inconsciente sendo o senhor de nós mesmos, e que sequer tomamos conhecimento disso.

A saída da Matrix, ou seja, de uma realidade que somos automatizados, e ir em direção ao mundo das Maravilhas, é análoga à passagem do consciente para o inconsciente. Porém, essa passagem só é possível por meio da linguagem que dá o sentido para tal e que, também, ganha sentido em si.