Uma linguagem do inconsciente

O filme Matrix foi lançado em 1999 no meio da efervescência do bug do milênio. O filme junta filosofia com tecnologia por meio de um enredo que prende qualquer pessoa, onde um jovem programador (Thomas Anderson – Keanu Reeves) e hacker se vê preso em um mundo de ilusão que até então acreditava ser o real. Todavia, esse mundo que julgava ser o real, era apenas uma imagem produzida em seu cérebro por inteligências artificias superdesenvolvidas que escravizam os humanos, alimentando-se da energia de seus corpos, mas mantendo-os em um estado de consciência induzida e programa. Há várias cenas a serem consideradas como relevantes. Contudo, para o objetivo deste texto, vamos no focar no diálogo entre Neo (Keanu Reeves) e Morpheus (Líder da resistência humana interpretado por Laurence Fishburne), no qual é proposta a escolha entre a pílula azul ou a vermelha.

“Esta é a sua última chance. Depois disso, não há como voltar atrás. Você toma a pílula azul – A história acaba, e você acorda em seu quarto e acredita no que quiser acreditar. Se tomar a pílula vermelha vai permanecer no País das Maravilhas e eu te mostrarei o quão profundo é o buraco do coelho”

A alusão ao mundo de Alice faz total sentido ao que se realizará em Neo. Um mundo, até então desconhecido por ele, mas que se trata do mundo como é, ou seja, experimentar a pílula vermelha, seria ‘cair no buraco do coelho’ e encontrar a verdade sobre si.

A partir deste ponto, a referência a Sigmund Freud é quase inevitável. Ele mesmo se intitula como a terceira ferida narcísica da humanidade, sendo a primeiro o golpe dado por Copérnico ao demonstrar que o homem não é centro do universo; o segundo golpe dado por Darwin ao teorizar sobre o evolucionismo das espécies na natureza, inclusive a espécie humana; e – finalmente – o terceiro golpe dado por Freud ao demonstrar de modo lúcido e eloquente o inconsciente. Assim, o homem não é o centro do universo, não é a criação mor da natureza, nem é dono de si mesmo, vendido ao seu inconsciente.

A sensação de não saber se está acordado ou dormindo é a relação que procuramos entre Matrix, Alice e Freud. Tanto em Matrix quanto em Alice nos deparamos com mundo, outra realidade outrora desconhecidas ou inacessíveis. O mesmo se dá com Freud, visto que há uma instância inacessível ao homem consciente e crente de si mesmo, a saber, o inconsciente.

Ainda nos resta outro personagem para compor nossa mesa, o filósofo Wittgenstein que muito nos acrescentará a essa nossa conversa. Ele preocupou-se com as formas e o funcionamento da linguagem, ou seja, o centro de sua obra é a lógica entendida como área do conhecimento que se ocupa com a linguagem simbólico-científica. Os jogos de linguagem ilustrados por Wittgenstein consistiam em utilizar a linguagem para representar o objeto determinando a partir dela a concepção da realidade. Em outras palavras, a realidade só faz sentido se essa perpassa pela linguagem, ou seja, a linguagem é quem fornece todo o sentido para a realidade se fazer enquanto tal. Porém, mencionamos aqui que há vários discursos, várias linguagens, várias comunicações distintas umas das outras, cada uma com sua gramática específica. Não se trata de um idioma, mas sim de toda forma de comunicação e discurso.

Assim posto, temos a configuração da Matrix e Alice como expoentes do diálogo emblemático entre Freud e Wittgenstein (os dois foram contemporâneos, diga-se de passagem), cada qual expondo o seu pensamento.

Mas qual relação podemos fazer entre tudo isso? É possível obtermos um diálogo que gere algum consenso entre um filósofo antimetafísico e o pai da psicanálise que funda seus conceitos, principalmente, abarcando-os no campo da metafísica?

Wittgenstein considera que a linguagem é o limite do pensamento e o limite do pensamento são os fatos. Assim, pensar em uma Matrix chega a ser um absurdo. Todavia, mesmo que seja um absurdo, essa mesma Matrix deverá ser comunicável, ou seja, deve estar embasada sobre o fundamento da lógica, a ponto de ser cognoscível. A linguagem se refere aos fatos e só sobre eles, não às coisas. Dizer que o garoto está sentado é um fato, mas só o garoto não é um fato, é uma coisa. A linguagem pode falar sobre o mundo retratando-o de um modo que concorde com a realidade, excluindo todo e qualquer subjetivismo ou doutrina. Aquilo que colocamos em relevo é a linguagem como uma imagem-espelho do mundo.

Supomos, então, tratarmos em termos de equivalência, a Matrix como o mundo em que vivemos, mas não que haja uma outra realidade extrínseca a cada um de nós, mas sim, um plano paralelo intrínseco, o qual chamaremos de ‘inconsciente’. Seria, então, o inconsciente, o ‘senhor de nós mesmos’, e não o consciente. Tomar a pílula vermelha, nesse caso, seria aventurar-se no ‘mundo das maravilhas do inconsciente’. Portanto, requer sair de seu estado atual, independente de qual seja o nome dado, e adentrar-se em si mesmo.

Ocorre que o inconsciente é inacessível. Será mesmo? Ao longo de seus estudos, Freud abandonou a hipnose e adotou o método da associação livre. Por meio desse método, Freud conseguira alcançar recônditos do inconsciente que outrora estavam ocultos ao sujeito. Nesse caso, a linguagem da pessoa fora fundamental para a investigação do ‘fato’. Contudo, não é esse o ponto principal que adotamos nesse paralelo entre nossos autores. Para Freud, por exemplo, um sonho é a manifestação do inconsciente, projetando imagens (muitas das vezes sem sentido algum), oriundas de cargas emocionais que foram, de alguma forma, armazenadas nele (o inconsciente). Portanto, podemos afirmar que um sonho é uma das maneiras que o inconsciente encontra de driblar os mecanismos de defesa e expressar-se – ou seja, a sua linguagem. Da mesma forma que a linguagem não se importa com o objeto, mas o fato, o inconsciente não faz referência ao objeto, mas à relação – ele é ligado no modo simétrico e não assimétrico. Chegamos, assim, no ponto chave – o sonho como uma linguagem do inconsciente.  

A imagem apresentada neste texto sugere que, analogamente falando, o inconsciente seria a nossa real versão, que comunica-se, dentre outras formas, por meio do sonho com seus conteúdos manifestos e latentes. Contudo, a linguagem é sobre ‘fatos e não coisas’. Assim, essa linguagem onírica deve ser decifrada. A decifração dessa linguagem revela um fragmento ou vários fragmentos específicos do inconsciente. Se para Wittgenstein, a linguagem é o que dá sentido aos fatos e que os fatos dão sentido à linguagem, nessa ida e vinda entre Matrix e o Mundo das maravilhas, nos deparamos com a figura do inconsciente sendo o senhor de nós mesmos, e que sequer tomamos conhecimento disso.

A saída da Matrix, ou seja, de uma realidade que somos automatizados, e ir em direção ao mundo das Maravilhas, é análoga à passagem do consciente para o inconsciente. Porém, essa passagem só é possível por meio da linguagem que dá o sentido para tal e que, também, ganha sentido em si.

Anormal?

A psicologia clínica é um dos campos de atuação da psicologia voltada para o estudo da mente, principalmente sua saúde. Há a especificidade de aperfeiçoar aspetos interpessoais e intrapessoais, além dos aspectos da própria história de vida do paciente. Dentre as abordagens psicológicas podem-se citar as abordagens comportamental, a psicanálise, a gestalt, dentre outras, estando as técnicas e os métodos vinculados a essas abordagens. Ela, a psicologia clínica, analisa as origens, as manifestações e os tratamentos para os distúrbios mentais envolvendo hábitos, pensamentos ou motivações. Esses distúrbios podem ser causados por fatores genéticos, ambientais, cognitivos ou neurológicos. As atribuições do psicólogo clínico não se limitam à uma perspectiva curativa (aspectos psicopatológicos) mas também à prevenção, redução das situações de risco e à melhoria da qualidade de vida. Infelizmente, ainda hoje há um certo preconceito ou um paradigma de que alguém que vai ao psicólogo ou psiquiatra pedir ajuda ser taxado como louco ou ‘anormal’.

Afinal de contas, como definir ‘anormal’? Embora seja muito fácil identificar pessoas aflitas ou com comportamento bizarro, a definição de normalidade e anormalidade não é algo tão simples assim.

Em sua ‘história da loucura’ (1961), Foucault mostra que a loucura não se trata de um dado biológico, da natureza, mas sim cultural, ou seja, cada época define seus limites para a normalidade e a anormalidade e se relaciona com a ‘loucura’ de acordo com o pensamento vigorante.

Assim, a normalidade está vinculada ao contexto histórico e social em que se vive. É só a partir do séc. XVII, a loucura é considerada como uma atitude daquele que está errado, uma vez que a razão é aquela que encaminha a humanidade para aquilo que é o certo e o correto. Inclusive, é nesse período que pessoas consideradas loucas (ou anormais) começaram a serem internadas em manicômios. No séc. XIX a visão do louco muda. Agora o louco não é mais um criminoso ou aquele que está errado, mas um doente. A classe médica ganha status de definir o que é normal e definir os padrões de tratamento para aqueles que fogem da normalidade. O que Foucault quer ressaltar é que cada época tem sua visão de normalidade e de que a ação frente à essa normalidade não depende unicamente do conhecimento que se detém, mas também do contexto histórico, cultural e social em que se está inserido.

Atitudes consideradas normais hoje em dia, outrora eram anormais; atitudes consideradas normais no passado, hoje são anormais.

Todavia, o problema de definir normalidade ainda persiste. Uma pessoa saudável, vivendo em uma sociedade doentia, seria considerada anormal? Pessoas que se recusam a aceitar regras tacanhas de crenças e comportamentos também seriam rotuladas de anormais, por não seguirem critérios normativos? Além disso, há de se apontar a diferença entre ator e observador (aquele que age / aquele que percebe), o que neste caso implicaria em uma percepção totalmente subjetiva da normalidade.

A propósito, o termo anormal remete a algo que foge da norma, da regra, do comum, do habitual. Sendo assim, pode-se dizer que pessoas extremamente altas ou baixas, extremamente inteligentes, talentosas ou atrasadas, por exemplo, são pessoas anormais.

Atualmente, as definições psicológicas para anormalidade se concentram em quatro critérios aceitos: angústia, desvio, disfunção e perigo. A anormalidade envolve dor e sofrimento, podendo ser agudo e crônico. Critérios como a má adaptação à vida cotidiana, a irracionalidade, imprevisibilidade, volatilidade, comportamentos anticonvencionais e constrangimentos são, também, considerados para delimitar o anormal do normal.

Adentrando o campo da psicanálise, a neurose é uma das três possibilidades de constituição do sujeito. Todo sujeito se constitui ao nascer à medida que faz experiências afetivas, emocionais, sociais, etc. Ao longo dessas relações vai-se construindo o ser de cada um, sua personalidade, o modo de estar com o outro: ou ele será um neurótico; ou será um perverso; ou será um psicótico. Para Freud, uma vez que toda a estrutura da personalidade se forma, a partir da sua relação dentro do Complexo de Édipo, o sujeito se ‘alinha’ em determinada estrutura e permanece assim, imutável (Winnicott, por outro lado, considera o trânsito entre as estruturas ao longo das experiências de vida).

A neurose se dá partir de um conflito, da divisão subjetiva, que fora recalcado no inconsciente. Como o objeto recalcado encontra-se no inconsciente, o sujeito não tem conhecimento de tal objetado, então ocorre uma simbolização de tal objeto ora recalcado. Dessa forma, a pessoa dentro dessa estrutura neurótica cria relações simbólicas com determinados objetos em vista de uma satisfação daquilo que fora recalcado – e como ocorre no inconsciente, a pessoa não toma conhecimento (ou posse) daquilo que a motiva a agir, pensar, sentir de determinada forma. A neurose pode ser dividida em subgrupos, a saber: histeria, neurose obsessiva e fobias.

Diferentemente do ocorre na neurose, na psicose há a falta do recalque, não se trata de algo que fora recalcado no inconsciente, mas uma falha na inscrição de algo que deveria ser inscrito e não fora. Na neurose ocorre o enfraquecimento de uma representação intolerável em tolerável, já na psicose o que ocorre é a separação radical e definitiva entre a representação intolerável e o eu, ocasionado a ‘expulsão’ dessa representação e com ela o fragmento afetivo de todo o indesejável, mergulhando o ‘eu’ em uma confusão alucinatória. Em outras palavras, como a representação não se instalou no simbólico, não há o retorno no simbólico, mas no real. Ficam evidentes assim, os sintomas na psicose como alucinações, delírios, intrusões e ecos de pensamentos, etc. A psicose pode ser dividida em subgrupos, a saber: esquizofrenia, paranoia e mania.

No caso da perversão, a forma de relacionar que ocorre na estrutura psíquica é da negação da representação, nesse caso, do princípio da castração. O retorno dessa representação que fora negada se dá por meio de um significante, neste caso, por exemplo, o fetiche. Por meio do fetiche, o perverso consegue administrar sua negação da castração afirmando-se como o legislador da lei, como o manipulador do outro, uma vez que o outro servirá ao meu bel prazer. A perversão pode se manifestar, além do fetiche, também nas práticas de sadismo e masoquismo e entrelaçam-se entre si, uma vez que estão muito próximas umas das outras.

Com isso exposto, tanto

a neurose, quanto a psicose e a perversão compõem a forma do sujeito se posicionar no mundo, fazem parte da leitura que se faz do outro.

Essas estruturas formam o quadro da normalidade, diferentemente do que se transmite pelo senso comum, ao afirmar que o neurótico, o psicótico ou o perverso são loucos, ou dito ‘anormais’. Para a psicanálise freudiana, a linha tênue entre normalidade e anormalidade seria identificada na intensidade na medida com que a pessoa vivencia os sintomas de sua determinada estrutura psíquica. Ou seja, quanto maior o grau do sintoma, maior o sofrimento. E é a partir desse sofrimento que se caracteriza a ‘anormalidade’ ou ‘desajuste’. Freud vai buscar nos meandros do inconsciente a compreensão e a cura (ou alívio) de determinado sintoma.

Concluindo, definir normal e anormal é uma habilidade de visão holística que vai além e ultrapassa qualquer ponto de vista unívoco, ultrapassa qualquer preconceito ou discurso unilateral.

Um cenário doentio da sociedade

Segundo Bauman (1998), há três pilares notórios da modernidade, a saber: a beleza, a pureza e a ordem. De forma sucinta, a beleza diz respeito à harmonia e perfeição da forma; a pureza no que diz respeito ao tocante da civilização e toda forma contrária desta deve ser banida; a ordem como repetição de um regulamento estabelecido de forma internalizada. Neste contexto é que está inserida a figura de Freud, o contexto da modernidade, de uma sociedade positivista. Mas também é nesse contexto que Bauman faz a leitura freudiana de ‘o mal-estar na civilização’.

Como é feita a negociação na sociedade entre as pessoas com os conceitos de segurança, liberdade, felicidade? Segundo Freud ‘a civilização se constrói sobre uma renúncia ao instinto. Ela (a civilização) impõe grandes sacrifícios à sexualidade e agressividade do homem. O anseio de liberdade, portanto, é dirigido contra formas e exigências particulares da civilização ou contra a civilização como um todo […] Os prazeres da vida civilizada vêm num pacote fechado com os sofrimentos, a satisfação com o mal-estar, a submissão com a rebelião’ (1930).

Há de se destacar os princípios do prazer e da realidade como determinantes dentro do contexto em que se pretende explicitar. Uma vez que a civilização trata de uma ordem imposta a uma humanidade naturalmente desordenada, há a redução do princípio do prazer pelo da realidade. Todo ser humano vive o conflito, desde seu nascimento, entre o princípio do prazer (o desejo) e o princípio da realidade (imposição social). Ao nascer, a criança é dominada pelo princípio do prazer, o qual rege a instância do Id. O Id, querendo satisfazer seus desejos mais primitivos, assim o faz. Conforme essa criança vai crescendo e amadurecendo, passando pelas fases de desenvolvimento sexuais psíquicos, o Ego – regido pelo princípio da realidade – tenta satisfazer os desejos e impulsos do Id, mas adequando-os à vida social. Essa adequação, de certa forma, acontece à medida que os valores, crenças e juízos do superego vão cristalizando-se.

Ora, a imagem a ser desenhado no quadro aqui exposto consiste de um lado a civilização que impõe (como o superego) seus limites, valores, crenças e ordens; do outro lado, o sujeito que quer imperar pela sua liberdade de escolha (à vista do Id que quer satisfazer seus impulsos). Se de um lado há a sociedade que impõe, por outro lado o Id que também quer se impor, no meio dessa encruzilhada encontra-se o coitado Ego querendo agradar ‘gregos e troianos’ – há uma tentativa de encontrar a melhor forma possível de atender aos desejos do Id adequando-os à realidade. Seria o acordo entre as partes iluministas e positivistas, entre Id e Superego, entre sociedade e individualidade.

Ocorre que hoje os dados da OMS relativos aos transtornos mentais apontam que em 2020 a depressão nervosa passará ser a segunda maior causa de mortes por doença no mundo, após somente de doenças cardíacas. Estima-se que o risco de desenvolver depressão, ao longo da vida, seja de 10% para os homens e de 20% para as mulheres. As causas podem ser de origem orgânica ou psíquica. Para a psicanálise, interessa os casos onde as causas são psíquicas (mesmo sendo causas de origem orgânica, recomenda-se o acompanhando de análise). O quadro apontado pela OMS é preocupante, porém, a depressão é apenas um de tantos outros distúrbios psíquicos. Segundo informativo do OPAS, existem diversos transtornos mentais, com apresentações diferentes. Eles geralmente são caracterizados por uma combinação de pensamentos, percepções, emoções e comportamento anormais, que também podem afetar as relações com outras pessoas. Entre os transtornos mentais, estão a depressão, o transtorno afetivo bipolar, a esquizofrenia e outras psicoses, demência, deficiência intelectual e transtornos de desenvolvimento, incluindo o autismo. O quadro exposto se trata de consequência daquilo que Freud já identificara – o conflito entre os princípios do prazer e realidade.

Para Freud, se tratando de distúrbios psíquicos, há uma causa a ser identificada. A origem pode ser tanto um desejo sexual infantil reprimido ou recalcado ou um trauma com forte carga emocional gerando uma hipercatexia. No conflito psíquico interno, ora sobressai o Id, ora o Superego, ora o Ego. As neuroses, por exemplo, são manifestações de desejos reprimidos pelo inconsciente, de modo imperfeito, que se manifestam de alguma forma, uma vez que o Ego é incapaz de lidar com esses desejos reprimidos sem sofrer – daí então a máscara da manifestação dos desejos como sintomas neuróticos. Sendo assim, para cada sintoma diferente, um tipo de neurose diferente. Os mecanismos de defesa se tratam de formas brandas de resistir e contornar os conflitos internos e dificuldades de lidar com alguns aspectos da realidade externa. Na neurose, a ponte com realidade é mantida, graças a esses mecanismos de defesa; já no quadro psicótico, por exemplo, a pessoa constrói, por assim dizer, uma realidade paralela, uma vez que seu conflito não se restringe ao mundo interno, mas sim à realidade externa.

O parêntese aberto ao citar brevemente o entendimento de Freud, serve para expor um segundo conceito do sociólogo Bauman, o da modernidade líquida. Os tempos líquidos em que a sociedade vive atualmente contrasta abruptamente com a realidade do séc. XX, citado no início do texto: da beleza, da pureza e da ordem. A sociedade hoje, sofre as consequências das sociedades anteriores, no entanto, continua a criar seus próprios doentes. Conforme citado, a depressão, por exemplo, será a segunda maior causa de morte. Os laços frágeis que são criados nas relações, os vínculos demasiadamente superficiais, a sociedade do ‘fast’, vive o conflito interno, assim como os homens e mulheres das sociedades anteriores. De certa forma, na era atual a gama de opções a escolher é vasta, porém, ao escolher um abre-se mão do outro; esse cenário, dentro de uma sociedade que vive a liquidez, não é satisfatório, gerando, assim, diversas ordens de conflitos internos – ou melhor, provocando os distúrbios mentais.

A ideia de um conflito entre o princípio da realidade e o princípio do prazer é tão atual e há muito ainda a ser compreendido sobre a esfera do conflito interno frente à realidade vivenciada por cada indivíduo.

Meu motivo!

“Aquele que tem um porquê para viver pode suportar quase qualquer como”, frase do famoso filósofo Nietzsche.

Essa frase diz respeito aos motivos. Uma pessoa motivada, você há de concordar comigo, é uma pessoa cheia de vida, entusiasmada. Já uma pessoa desmotivada é triste. O paralelo entre ânimo e desânimo é inevitável. Uma pessoa motivada é uma pessoa animada; uma pessoa desmotivada é uma pessoa desanimada. Só para esclarecer a relação aqui, a palavra ânima, do latim, significa alma, que é o equivalente de vida. Ou seja, uma pessoa com vida; uma pessoa sem vida.

Os motivos que inserimos em nossas vidas são determinantes para nossa peregrinação. A motivação como um motivo, um alvo, um objetivo, um porquê, se faz fundamental para uma vida cheia de vida. E quanto maior a motivação você tiver, maior será a sua resposta à vida.

Você já listou seus motivos? Seus porquês da vida? Aquilo que faço, por que faço? Aquilo que penso, por que penso? Aquilo que sinto, por que sinto? Aquilo que vivo, por que vivo? Quem sou, por que sou?

Liste seus motivos e motive-se a conquistar a plenitude de sua vida.

Para o filósofo grego Aristóteles, a felicidade consiste na plenitude da alma, em todos os seus âmbitos. Você pode ter algum significado diferente para felicidade. Não importa o significado que você dê para a felicidade, o que importa é se seus motivos são válidos para você e dados por você (não por alguém de fora).

Na correria do dia a dia, nos perdemos em tantas coisas, que chegando à noite, só pensamos em dormir. Fazemos, fazemos, fazemos… São tantas coisas com o verbo fazer! Todavia, se não há um motivo por detrás de cada atitude que tomamos, um motivo realmente excelente, facilmente tornamo-nos robôs. Por exemplo, trabalhar em uma função qualquer, de um empresa qualquer, desempenhando atividade qualquer, somente pelo benefício do salário, faz você se sentir frustrado 29 dias no mês, estando feliz (e olhe lá) somente no dia do pagamento. Está certo isso? Qual a coerência de vida nesse fato? Poderia citar vários outros exemplo, mas acredito que seja o suficiente para pegar o fio condutor do que estou dizendo.

Qual seu maior motivo de vida? Já pensou sobre isso?

Motivo + Ação = Motivação!

Livres de espírito!

Sartre, filósofo francês, dizia que o homem está condenando à liberdade, ou seja, não há outro motivo de viver para o homem que não seja na liberdade.

Mas afinal de contas, o que é liberdade?

Falamos tanto em liberdade de expressão, liberdade de ir e vir, liberdade de pensamento, liberdade de viver, liberdade de fazer, liberdade de consumir, etc…

Qual seria o significado de liberdade pra você? O que seria ‘ser livre’?

Já encontrei muitas pessoas em minha vida que aparentavam ser livres, mas estavam acorrentados por dentro, com uma amargura, um ódio, um rancor, uma mágoa, inveja, angústia, decepções, desilusões. Livres por fora, presas por dentro. Nesse sentido, de que adiantaria uma liberdade de ir, de falar, de fazer ou qualquer outra, se a liberdade de ser você mesmo não for vivenciada?

Acredito que não exista liberdade maior senão aquela que te possibilita ser você mesmo. Veja que não importa a situação, não importa com quem, não importa onde nem quando, ser quem você, de fato é, não tem preço.

Ouvi uma frase que dizia o seguinte: todo o dinheiro do mundo não é capaz de comprar um segundo de tempo, nem o que se passou nem o que virá. Queremos tanto ser livres, temos o sonho da liberdade – e somos presos ao tempo!

Agora pare e pense um pouquinho em quantas vezes você, com seus pensamentos, foi longe a ponto de se desligar do aqui e agora. Nossa… faço isso direto. Naqueles momentos, é como se nos desconectarmos do quando e do onde, é como se não houvesse barreiras para o tempo e espaço – nos sentimos totalmente livres com relação a isso – ganhamos nossa liberdade de espírito de ir para o onde e quando, não importando as distâncias nem de tempo e nem de espaço.

Essa sim, considero a verdadeira liberdade: a de espírito. É essa liberdade de espírito que nos revela e nos mostra quem realmente somos. E aquele que tem a ousadia, a coragem, a audácia de viver esse ser a si mesmo, livre no seu espírito, esse merece meu respeito, pois não é aquilo que está fora que ferirá a sua liberdade interior – poderá passar por várias coisas, mas sua liberdade interior estará intacta.

Não são as limitações do mundo exterior que a atingem, mas aquelas postas por ela mesma em seu mundo interior.

Não se prenda. Liberte-se!

Sobre expectativas e frustrações!

Você já se frustrou? Se decepcionou? Certamente.

E o pior é que as frustrações e as decepções parecem que vêm de quem mais amamos, não é mesmo?

Pra ser sincero, toda decepção é antecedida por uma expectativa. Quanto maior a expectativa, se não for alcançada, maior será a frustração ou decepção.

Dessa forma, uma decepção está diretamente relacionada com a expectativa criada.

Os estoicos tinham um grande segredo para lidar com a decepção. Como sou um cara legal, vou dizer pra vocês esse grande segredo: simplesmente,

Não ter expectativas.

Olha, soa meio estranho para nós, num mundo no qual vivemos e em nossa realidade, não ter expectativas. Esses caras eram bons no que faziam… Eles conseguiam viver uma vida sem nutrir expectativas e, consequentemente, as chances de qualquer decepção ou frustração eram mínimas. Eles se preocupavam com aquilo que estavam sob o controle deles, aquilo que não estava sob o poder deles de fazerem algo, não se importavam ou minimizavam.

Esperar um pedido de casamento, em um jantar romântico, e não acontecer, gera uma frustração daquele que esperava, mas não naquele que nem passava pela cabeça dele em o fazer.

Uma promoção no emprego que você luta para conseguir, mas não consegue, gera frustração desânimo, raiva, etc…

Uma resposta de uma entrevista de emprego, de um pedido de namoro, o recebimento de uma encomenda, enfim…

Mas se ao invés de gastar tanta energia com possibilidades que podem acontecer ou não, você se esforçar em viver o seu melhor naquilo que você pode assim fazer, sem nutrir expectativas de retorno, retribuição ou recompensa?

Nossos amigos estoicos viviam isso com maestria. E querendo ou não, davam uma solução para suas vidas não atingirem o patamar da frustração: não nutrir expectativas.

O que você acha?

Ah, o amor…

O amor…. Ah, o amor! Coisa mais linda não há.

Quanto já se falou sobre o amor na literatura? Quanto já se retratou o amor em pinturas, desenhos e fotografia? Poesias e filosofias? Quanto ele já foi encenado?

Pois é, foram inúmeras as vezes que não seria inviável contabilizar. Isso porque o amor, de fato, faz parte da vida humana.

Talvez você hoje esteja vivendo um grande amor; talvez esteja desiludido com ele por conta de uma decepção; talvez o amor, hoje, não seja algo relevante em sua vida. Enfim…

Já ouvi pessoas dizendo que o amor é decisão, que o amor é racional, ou coisa assim. Discordo!

Pra mim, o amor se trata de um sentimento, o mais forte deles, que impulsiona toda a nossa vida.

Somos espectadores diante desse grande artista apresentando seu espetáculo.

O amor não avisa quando chega nem quando vai. Não o controlamos, não o adestramos, não o ensinamos, não o racionalizamos. Quando vemos, simplesmente estamos amando… e quando vemos, de novo, não estamos mais amando.

O amor se expressa em atos, mas não são os atos; o amor emana de uma força interior, mas não se contenta em si; o amor não se acostuma com a monotonia, mas não exclui a longevidade; o amor não se impõe, mas quer exclusividade; o amor não é egoísta, mas demonstra uma carência incrível – quer cuidado, carinho, respeito, atenção, e acima de tudo, reciprocidade; se doa ao mesmo tempo em que recebe.

O amor é incrível! Fantástico como o amor supera todas as barreiras das distâncias geográficas e do tempo. Já pensou sobre isso?

Nunca vi ninguém chorar, lamentar ou sofrer por amor. Mas vi muitas pessoas sofrerem pela falta dele. Infelizmente, acaba sendo culpado pelo que não faz, julgado, esquecido, maltratado e preterido. Muitas vezes é confundido, escondido e sufocado.

Podemos notar o amor entre um casal, entre pais e seus filhos, nas atividades que realizamos, nos objetos que possuímos, nos pet’s que cuidamos, etc… O amor está presente em toda a nossa vida.

Sem essa de amor verdadeiro, pois não existe amor verdadeiro. Existe amor! Se existisse amor verdadeiro podemos dizer que há amor falso. E se é amor falso, ora, já não é amor. O que existe, exclusivamente, é o amor em suas diversas e mais belas esferas de vivência.

O amor é essencial para a vida das pessoas.

Viva o amor!!!

Imagine uma vida sem amor? Consegue?

Amor fati

Olá.

Você já ouviu falar de ‘amor fati’?

Essa expressão traduzida do latim, ‘amor ao destino’, foi cunhada pelo filósofo alemão Nietzsche (1844-1900).

Amor fati, como a expressão significa, é uma forma de vida que, segundo o filósofo, é essencial para uma vida em equilíbrio e harmonia.

Você já chorou por algo que te chocou ou machucou absurdamente? Já se arrependeu de algo que falou ou fez? Já veio aquele pensamento que se fosse possível voltar no tempo, talvez as coisas hoje estariam diferentes? Já ficou se remoendo por pensamentos e sentimentos que tiravam seu sono, sua calma, te distraíam em demasiado?

Ora, quem nunca? Felizmente, para o nosso filósofo, o amor fati é a solução para tudo isso. Quase um comercial do mais novo lançamento das ‘organizações Tabajara’ (risos).

Amar o destino seria o equivalente a amar os fatos. Amar não quer dizer que você tenha que gostar ou fazer aquela cara de besta num velório de alguém querido que acabou de falecer, por exemplo. Amar é aceitar. Vem bem a calhar aquela expressão: ‘aceita que dói menos’.

Se você aceita os fatos da vida, aquilo que te sucede como algo natural que está inserido dentro de uma enorme cadeia de eventos que não são possíveis de serem controlados, se você aceita aquilo que te aconteceu, sabendo que não pode mais ser mudado, como algo que aconteceu e pronto, os motivos de tanta culpa, remorso, arrependimento, os motivos de tanta coisa que tiram a paz de espírito não fazem mais sentido.

Pensamentos acelerados, estresse agudo, cansaço demasiado, dor no peito, angústia? Que nada. Aceite a vida como ela é, como ela decorre. Aceite-se a si mesmo como você é. Se ame como você é. Ame os acontecimentos da vida e siga em frente. Não vale a pena gastar tanta energia com aquilo que passou ou não foi de encontro com a sua expectativa. Apenas viva. Fazendo isso, certamente, será mais leve e sua qualidade de vida dará um ‘up’ absurdo.

Falta de dinheiro, falta de emprego, falta de alguém, falta de algo… falta de nada! Com certeza muitos problemas, muitas coisas, muitos ‘demônios’ te assombram. Quanto mais poder você der a eles, mais eles te dominarão. Tire o poder, tire a atenção, tire o foco. Dance a música. Não dê atenção ao que te tira a paz e foque em você daqui pra frente. Ficar se remoendo ou lamentando não vai mudar nada!

Olhe pra frente e siga. Continue! Persista! Avante!

Não que eu concorde com isso, mas cá pra nós: se você deixar de olhar pra trás e aceitar os acontecimentos da sua vida, e passar a olhar pra frente, de fato, sua vida dará um salto adiante!

Talvez já tenha passado da hora de focar o ‘e se’, e focar o ‘vida que segue’.

O que acha disso?

Vale a pena?

Oi.

Você tem um sonho? Claro que tem. Que pergunta mais tola…

Mas me refiro a um sonho que trará certa realização pessoal?

Existem muitos tipos de realização: a pessoal, a profissional, a financeira, a familiar, etc…

Me refiro a uma realização pessoal! Aquele tipo de realização que fará de você uma pessoa melhor, enquanto pessoa mesmo! Sabe aquele sonho que te trará um contentamento de alma? É disso que estou falando.

Um momento de realização é um momento de liberdade, superação e êxtase.

Muitas pessoas focam tantos sonhos que se resumem ao que está longe ou fora delas. O fato é que nenhum tipo de realização será satisfatória se aquela realização não atingir o seu mais íntimo – ou seja, se a realização, seja ela qual for, não girar em torno de sua realização pessoal, mais cedo ou mais tarde, ruirá.

O inglês tem um termo que demonstra muito bem o que estou dizendo: to realize (perceber). A realização, ou seja, tornar o sonho real por meio de uma ação, só será possível mediante um pertencimento. Me refiro a um pertencimento de si mesmo, em outras palavras, empoderamento.

Perceber a si mesmo dentro de um contexto, de um mundo, de um modo de vida que satisfaça ou não.

E se há algo que não satisfaz, é porque falta algo. Mas para tanto, é preciso perceber esse algo. Dessa forma, falar de realização pessoal é então ‘perceber-se’, realizar-se enquanto pessoa, enquanto indivíduo, enquanto ser humano, enquanto alguém.

Infelizmente, acontece de, inúmeras vezes, sermos mais tratados como algo do que como alguém; valemos pelo que fazemos, pelo que temos, mas não por quem somos. Somos um número em uma lista.

Triste realidade! (carinha de desapontamento)

Perceba-se enquanto alguém importante, alguém de valor e não perca mais tempo em tornar realidade, por meio de uma ação significativa, os seus sonhos.

Realize-se! Perceba-se! Faça acontecer! Faça valer a pena.

Afinal de contas, a vida é tão curta para ser vivida de qualquer jeito, não é mesmo?

Como o velho Sócrates seguia: “Conhece-te a ti mesmo”.

Não desperdice sua vida!

De repente nos vemos mais velhos, mais maduros… Nos tornamos adultos. Somos tomados pelo senso de responsabilidade e conformismo. Aos poucos vamos nos acostumando a viver uma rotina e, quando vemos, estamos acomodados nela.

Os anos continuam passando, o tempo vai nos engolindo… Então, chegamos num certo ponto da vida e nos questionamos: “o que eu fiz da minha vida?” Claro que fizemos muitas coisas, mas em todas as coisas que fizemos qual foi nosso grau de satisfação, de prazer, de identificação?

Se, num breve olhar, nos identificamos com aquilo que fazemos, a chance de haver uma identidade própria, de identificação com quem se é, é muito grande.  O que você tem feito, você pode dizer que é uma extensão de quem você é? Ou será que a obrigação lhe toma? Ou a necessidade se faz de protagonista em você?

São inúmeras as pessoas que se veem infelizes e insatisfeitas com suas vidas; acabam tomando por modelo ou padrão a vida de pessoas com grande poder aquisitivo e almejam por isso… lhes parece que enquanto não for ‘bem sucedida’ na vida, em termos de poder aquisitivo, não será feliz, pois, afinal de contas, a felicidade consiste em consumir.

Ledo engano…

Na minha opinião, a felicidade não consiste em consumir, mas em ser. Já dizia Sartre, filósofo francês do século passado, que ‘não importa o que fizeram de você, mas o que você faz com aquilo que fizeram de você’. Vivemos num mundo capitalista que cada vez mais se impõe, sugestionando que a felicidade está atrelada ao consumo. Ora, vivemos nesse mundo, mas será que devemos nos submeter a esse estilo de vida proposto? Viver uma vida de consumo não é sinônimo de viver uma vida feliz (é apenas uma vida de consumo); se assim fosse, os consultórios psiquiátricos não estariam lotados por pessoas com grande poder aquisitivo.

Vive-se uma vida de procura por aquilo que não tem, ao invés de valorizarem aquilo que já tem.

Falta amor próprio, falta identidade, falta sinceridade consigo mesmo. O sentido da vida deixou de ser a própria vida e passou a ser uma enormidade de ‘coisas’ fora da própria pessoa. Os momentos dão lugar às selfies; as pessoas cedem lugar aos smartphones; a equipe, aos funcionários; a família perdeu seu lugar; os amigos reais por seguidores virtuais; a expectativa por uma resposta pela pressa da visualização, etc.

O mundo pode ter melhorado graças à tecnologia; mas será que as pessoas melhoraram também?

A vida é uma dádiva que passa muito rápido. Ela é curta demais para vivermos de qualquer jeito… Rápida demais para vivermos com pressa.