Uma linguagem do inconsciente

O filme Matrix foi lançado em 1999 no meio da efervescência do bug do milênio. O filme junta filosofia com tecnologia por meio de um enredo que prende qualquer pessoa, onde um jovem programador (Thomas Anderson – Keanu Reeves) e hacker se vê preso em um mundo de ilusão que até então acreditava ser o real. Todavia, esse mundo que julgava ser o real, era apenas uma imagem produzida em seu cérebro por inteligências artificias superdesenvolvidas que escravizam os humanos, alimentando-se da energia de seus corpos, mas mantendo-os em um estado de consciência induzida e programa. Há várias cenas a serem consideradas como relevantes. Contudo, para o objetivo deste texto, vamos no focar no diálogo entre Neo (Keanu Reeves) e Morpheus (Líder da resistência humana interpretado por Laurence Fishburne), no qual é proposta a escolha entre a pílula azul ou a vermelha.

“Esta é a sua última chance. Depois disso, não há como voltar atrás. Você toma a pílula azul – A história acaba, e você acorda em seu quarto e acredita no que quiser acreditar. Se tomar a pílula vermelha vai permanecer no País das Maravilhas e eu te mostrarei o quão profundo é o buraco do coelho”

A alusão ao mundo de Alice faz total sentido ao que se realizará em Neo. Um mundo, até então desconhecido por ele, mas que se trata do mundo como é, ou seja, experimentar a pílula vermelha, seria ‘cair no buraco do coelho’ e encontrar a verdade sobre si.

A partir deste ponto, a referência a Sigmund Freud é quase inevitável. Ele mesmo se intitula como a terceira ferida narcísica da humanidade, sendo a primeiro o golpe dado por Copérnico ao demonstrar que o homem não é centro do universo; o segundo golpe dado por Darwin ao teorizar sobre o evolucionismo das espécies na natureza, inclusive a espécie humana; e – finalmente – o terceiro golpe dado por Freud ao demonstrar de modo lúcido e eloquente o inconsciente. Assim, o homem não é o centro do universo, não é a criação mor da natureza, nem é dono de si mesmo, vendido ao seu inconsciente.

A sensação de não saber se está acordado ou dormindo é a relação que procuramos entre Matrix, Alice e Freud. Tanto em Matrix quanto em Alice nos deparamos com mundo, outra realidade outrora desconhecidas ou inacessíveis. O mesmo se dá com Freud, visto que há uma instância inacessível ao homem consciente e crente de si mesmo, a saber, o inconsciente.

Ainda nos resta outro personagem para compor nossa mesa, o filósofo Wittgenstein que muito nos acrescentará a essa nossa conversa. Ele preocupou-se com as formas e o funcionamento da linguagem, ou seja, o centro de sua obra é a lógica entendida como área do conhecimento que se ocupa com a linguagem simbólico-científica. Os jogos de linguagem ilustrados por Wittgenstein consistiam em utilizar a linguagem para representar o objeto determinando a partir dela a concepção da realidade. Em outras palavras, a realidade só faz sentido se essa perpassa pela linguagem, ou seja, a linguagem é quem fornece todo o sentido para a realidade se fazer enquanto tal. Porém, mencionamos aqui que há vários discursos, várias linguagens, várias comunicações distintas umas das outras, cada uma com sua gramática específica. Não se trata de um idioma, mas sim de toda forma de comunicação e discurso.

Assim posto, temos a configuração da Matrix e Alice como expoentes do diálogo emblemático entre Freud e Wittgenstein (os dois foram contemporâneos, diga-se de passagem), cada qual expondo o seu pensamento.

Mas qual relação podemos fazer entre tudo isso? É possível obtermos um diálogo que gere algum consenso entre um filósofo antimetafísico e o pai da psicanálise que funda seus conceitos, principalmente, abarcando-os no campo da metafísica?

Wittgenstein considera que a linguagem é o limite do pensamento e o limite do pensamento são os fatos. Assim, pensar em uma Matrix chega a ser um absurdo. Todavia, mesmo que seja um absurdo, essa mesma Matrix deverá ser comunicável, ou seja, deve estar embasada sobre o fundamento da lógica, a ponto de ser cognoscível. A linguagem se refere aos fatos e só sobre eles, não às coisas. Dizer que o garoto está sentado é um fato, mas só o garoto não é um fato, é uma coisa. A linguagem pode falar sobre o mundo retratando-o de um modo que concorde com a realidade, excluindo todo e qualquer subjetivismo ou doutrina. Aquilo que colocamos em relevo é a linguagem como uma imagem-espelho do mundo.

Supomos, então, tratarmos em termos de equivalência, a Matrix como o mundo em que vivemos, mas não que haja uma outra realidade extrínseca a cada um de nós, mas sim, um plano paralelo intrínseco, o qual chamaremos de ‘inconsciente’. Seria, então, o inconsciente, o ‘senhor de nós mesmos’, e não o consciente. Tomar a pílula vermelha, nesse caso, seria aventurar-se no ‘mundo das maravilhas do inconsciente’. Portanto, requer sair de seu estado atual, independente de qual seja o nome dado, e adentrar-se em si mesmo.

Ocorre que o inconsciente é inacessível. Será mesmo? Ao longo de seus estudos, Freud abandonou a hipnose e adotou o método da associação livre. Por meio desse método, Freud conseguira alcançar recônditos do inconsciente que outrora estavam ocultos ao sujeito. Nesse caso, a linguagem da pessoa fora fundamental para a investigação do ‘fato’. Contudo, não é esse o ponto principal que adotamos nesse paralelo entre nossos autores. Para Freud, por exemplo, um sonho é a manifestação do inconsciente, projetando imagens (muitas das vezes sem sentido algum), oriundas de cargas emocionais que foram, de alguma forma, armazenadas nele (o inconsciente). Portanto, podemos afirmar que um sonho é uma das maneiras que o inconsciente encontra de driblar os mecanismos de defesa e expressar-se – ou seja, a sua linguagem. Da mesma forma que a linguagem não se importa com o objeto, mas o fato, o inconsciente não faz referência ao objeto, mas à relação – ele é ligado no modo simétrico e não assimétrico. Chegamos, assim, no ponto chave – o sonho como uma linguagem do inconsciente.  

A imagem apresentada neste texto sugere que, analogamente falando, o inconsciente seria a nossa real versão, que comunica-se, dentre outras formas, por meio do sonho com seus conteúdos manifestos e latentes. Contudo, a linguagem é sobre ‘fatos e não coisas’. Assim, essa linguagem onírica deve ser decifrada. A decifração dessa linguagem revela um fragmento ou vários fragmentos específicos do inconsciente. Se para Wittgenstein, a linguagem é o que dá sentido aos fatos e que os fatos dão sentido à linguagem, nessa ida e vinda entre Matrix e o Mundo das maravilhas, nos deparamos com a figura do inconsciente sendo o senhor de nós mesmos, e que sequer tomamos conhecimento disso.

A saída da Matrix, ou seja, de uma realidade que somos automatizados, e ir em direção ao mundo das Maravilhas, é análoga à passagem do consciente para o inconsciente. Porém, essa passagem só é possível por meio da linguagem que dá o sentido para tal e que, também, ganha sentido em si.

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