Um cenário doentio da sociedade

Segundo Bauman (1998), há três pilares notórios da modernidade, a saber: a beleza, a pureza e a ordem. De forma sucinta, a beleza diz respeito à harmonia e perfeição da forma; a pureza no que diz respeito ao tocante da civilização e toda forma contrária desta deve ser banida; a ordem como repetição de um regulamento estabelecido de forma internalizada. Neste contexto é que está inserida a figura de Freud, o contexto da modernidade, de uma sociedade positivista. Mas também é nesse contexto que Bauman faz a leitura freudiana de ‘o mal-estar na civilização’.

Como é feita a negociação na sociedade entre as pessoas com os conceitos de segurança, liberdade, felicidade? Segundo Freud ‘a civilização se constrói sobre uma renúncia ao instinto. Ela (a civilização) impõe grandes sacrifícios à sexualidade e agressividade do homem. O anseio de liberdade, portanto, é dirigido contra formas e exigências particulares da civilização ou contra a civilização como um todo […] Os prazeres da vida civilizada vêm num pacote fechado com os sofrimentos, a satisfação com o mal-estar, a submissão com a rebelião’ (1930).

Há de se destacar os princípios do prazer e da realidade como determinantes dentro do contexto em que se pretende explicitar. Uma vez que a civilização trata de uma ordem imposta a uma humanidade naturalmente desordenada, há a redução do princípio do prazer pelo da realidade. Todo ser humano vive o conflito, desde seu nascimento, entre o princípio do prazer (o desejo) e o princípio da realidade (imposição social). Ao nascer, a criança é dominada pelo princípio do prazer, o qual rege a instância do Id. O Id, querendo satisfazer seus desejos mais primitivos, assim o faz. Conforme essa criança vai crescendo e amadurecendo, passando pelas fases de desenvolvimento sexuais psíquicos, o Ego – regido pelo princípio da realidade – tenta satisfazer os desejos e impulsos do Id, mas adequando-os à vida social. Essa adequação, de certa forma, acontece à medida que os valores, crenças e juízos do superego vão cristalizando-se.

Ora, a imagem a ser desenhado no quadro aqui exposto consiste de um lado a civilização que impõe (como o superego) seus limites, valores, crenças e ordens; do outro lado, o sujeito que quer imperar pela sua liberdade de escolha (à vista do Id que quer satisfazer seus impulsos). Se de um lado há a sociedade que impõe, por outro lado o Id que também quer se impor, no meio dessa encruzilhada encontra-se o coitado Ego querendo agradar ‘gregos e troianos’ – há uma tentativa de encontrar a melhor forma possível de atender aos desejos do Id adequando-os à realidade. Seria o acordo entre as partes iluministas e positivistas, entre Id e Superego, entre sociedade e individualidade.

Ocorre que hoje os dados da OMS relativos aos transtornos mentais apontam que em 2020 a depressão nervosa passará ser a segunda maior causa de mortes por doença no mundo, após somente de doenças cardíacas. Estima-se que o risco de desenvolver depressão, ao longo da vida, seja de 10% para os homens e de 20% para as mulheres. As causas podem ser de origem orgânica ou psíquica. Para a psicanálise, interessa os casos onde as causas são psíquicas (mesmo sendo causas de origem orgânica, recomenda-se o acompanhando de análise). O quadro apontado pela OMS é preocupante, porém, a depressão é apenas um de tantos outros distúrbios psíquicos. Segundo informativo do OPAS, existem diversos transtornos mentais, com apresentações diferentes. Eles geralmente são caracterizados por uma combinação de pensamentos, percepções, emoções e comportamento anormais, que também podem afetar as relações com outras pessoas. Entre os transtornos mentais, estão a depressão, o transtorno afetivo bipolar, a esquizofrenia e outras psicoses, demência, deficiência intelectual e transtornos de desenvolvimento, incluindo o autismo. O quadro exposto se trata de consequência daquilo que Freud já identificara – o conflito entre os princípios do prazer e realidade.

Para Freud, se tratando de distúrbios psíquicos, há uma causa a ser identificada. A origem pode ser tanto um desejo sexual infantil reprimido ou recalcado ou um trauma com forte carga emocional gerando uma hipercatexia. No conflito psíquico interno, ora sobressai o Id, ora o Superego, ora o Ego. As neuroses, por exemplo, são manifestações de desejos reprimidos pelo inconsciente, de modo imperfeito, que se manifestam de alguma forma, uma vez que o Ego é incapaz de lidar com esses desejos reprimidos sem sofrer – daí então a máscara da manifestação dos desejos como sintomas neuróticos. Sendo assim, para cada sintoma diferente, um tipo de neurose diferente. Os mecanismos de defesa se tratam de formas brandas de resistir e contornar os conflitos internos e dificuldades de lidar com alguns aspectos da realidade externa. Na neurose, a ponte com realidade é mantida, graças a esses mecanismos de defesa; já no quadro psicótico, por exemplo, a pessoa constrói, por assim dizer, uma realidade paralela, uma vez que seu conflito não se restringe ao mundo interno, mas sim à realidade externa.

O parêntese aberto ao citar brevemente o entendimento de Freud, serve para expor um segundo conceito do sociólogo Bauman, o da modernidade líquida. Os tempos líquidos em que a sociedade vive atualmente contrasta abruptamente com a realidade do séc. XX, citado no início do texto: da beleza, da pureza e da ordem. A sociedade hoje, sofre as consequências das sociedades anteriores, no entanto, continua a criar seus próprios doentes. Conforme citado, a depressão, por exemplo, será a segunda maior causa de morte. Os laços frágeis que são criados nas relações, os vínculos demasiadamente superficiais, a sociedade do ‘fast’, vive o conflito interno, assim como os homens e mulheres das sociedades anteriores. De certa forma, na era atual a gama de opções a escolher é vasta, porém, ao escolher um abre-se mão do outro; esse cenário, dentro de uma sociedade que vive a liquidez, não é satisfatório, gerando, assim, diversas ordens de conflitos internos – ou melhor, provocando os distúrbios mentais.

A ideia de um conflito entre o princípio da realidade e o princípio do prazer é tão atual e há muito ainda a ser compreendido sobre a esfera do conflito interno frente à realidade vivenciada por cada indivíduo.

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