O inferno são os outros?

Na obra de Jean Paul Sartre, filósofo francês, Entre Quatro Paredes’ ele narra a convivência de pessoas de uma forma bem pessimista, onde os conflitos que vivemos são causados pelos outros – os outros são os culpados pelas coisas errados – eles são o nosso inferno.

Bem, estamos falando de relações.

Boi, boi, boi… Boi da cara preta pega essa criança que tem medo de careta…

Quem nunca ouviu essa canção? Pelo menos uma vez na vida você já deve ter tido contato com ela. Costumeiramente nos deparamos com essa canção como uma daquelas de ninar, para fazer uma criança dormir. Não é verdade?

Convenhamos, que canção mais horripilante para fazer alguém dormir, não? Na base da ameaça. Dorme, menino (a), senão o boi da cara preta vem te pegar. Quantas outras canções você conhece que se enquadram nesse molde?

Vejo que isso, de certa forma, faz parte da base e educação que recebemos: o medo. Segundo Emilio Mira Y Lopez, o medo é um dos quatro gigantes da alma. O medo não só é um instinto natural, mas manipulável. Manipula-se o medo a favor do opressor contra o oprimido. Isso em diversas instâncias: na família (se não fizer isso vai ficar de castigo); na escola (se não fizer a lição e se comportar vamos convocar seus pais); no trabalho (entregue o relatório no prazo senão será demitido); e assim vai.

O medo faz parte da vida humana e serve como uma referência para a sobrevivência. Na segurança (moradia, integridade física, sua saúde, seu psicológico – daí a necessidade de tantos seguros que existem no mercado); na economia (alimentação, dinheiro, trabalho); na sociedade (contratos para todos os gêneros possíveis); na vida afetiva (relacionamentos que trazem segurança, medo de traição, ciúmes)

Percebeu como o medo está em todo lugar?

Por causa dele (o medo), os primeiros seres humanos, em busca de segurança, passaram a viver juntos como uma forma de protegerem-se contra os ataques inimigos. Infelizmente, os seres humanos não só se defendiam contra os ataques de outras espécies, mas tiveram que se defender de si próprios, contra indivíduos da sua própria espécie – o mal de Caim.

A coisa não mudou muito nesse tempo, uma vez que parece ser o próprio ser humano seu maior inimigo. Ao longo de nossa vida construímos relações de amizades e afetos, mas também relações capazes de nos destruir – tornam-se nossos inimigos (recomendo a leitura de um livro do Pe. Fábio de Melo chamado ‘Quem me roubou de mim?’). De uma maneira hipotética posso exemplificar amigos ou inimigos: pai, mãe, irmão, parentes, cônjuge, amigos, colegas de trabalho, patrão, etc… a lista se estende. Em todos esses tipos de relação podemos construir relações que edificam ou relações que destroem, podemos nos unir para nos protegermos contra os ataques de fora ou devemos nós mesmos nos protegermos contra os ataques internos.

O medo pode unir, mas afastar. Afasta quando utilizamos o medo contra o outro e nos defendemos por meio do ódio e do preconceito, da injúria, da calúnia, da inveja, da difamação, do erro, da ganância, e assim por diante. Por trás de tudo isso, na maioria das vezes, encontramos o medo: medo do outro ser melhor que eu, medo do outro me superar, medo do outro tomar meu lugar, medo do outro fazer melhor que eu. Voltamos, assim, ao início deste post: o inferno são os outros.

Fonte: Pinterest

Vivemos uma vida com medo. Contudo, o medo pode ser usado ao nosso favor, quando se criam relações que edificam (no caso dos primeiros seres humanos formando suas tribos), relações que geram segurança, proteção, respeito, partilha.

Ao encararmos o medo numa visão positiva, há união. Usa-se o medo como uma forma de construir pontes, ou seja, ligações, relacionamentos que se juntam. Ao passo que encarar o medo de forma negativa, faz com que construamos muros e barreiras, justamente porque almejamos evitar esse inferno, esse problema, esse percalço no caminho.

E aí? De que lado você prefere estar?

Newton dizia que “construímos muros demais e pontes de menos”.

Prefere construir pontes ou levantar muros?

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